sexta-feira, 16 de julho de 2010

PEDAGOGIA DA AUTONOMIA

PEDAGOGIA DA AUTONOMIA [1]
Não Há Docência Sem Discência
A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria/prática sem a qual a teoria pode ir virando um blábláblá e a prática,
ativismo (Freire, 1998, p. 24).
Não importa, em verdade, a linha pedagógica adotada pelo professor, seja ele um progressista ou um conservador, existem saberes necessários que ambas as linhas de pensamento devem seguir. Todo processo que vise o desenvolvimento de um modelo de ensino deve, basicamente, considerar também a direção dada à aprendizagem. Assim, o professor ensina e aprende ao mesmo tempo, não apenas no formato acadêmico, mas também na própria base de formação da ação.
Ao educador cabe instaurar o rigorismo do método, em função de despertar no educando a curiosidade aquela que busca o conhecimento, portanto insubmissa, e então, por extensão da idéia, formadora do senso crítico. Aprender criticamente é, em suma, formar a autonomia. Não é jamais, um estado de apropriar-se do conhecimento do mestre, mas um ato de formação e de interação da própria capacidade cognitiva do indivíduo com o meio. Assim, o mestre provém o aluno dos instrumentos apenas, do ferramental para a perfectibilização da formação crítica no indivíduo enquanto aluno.
Neste ato de formação da capacidade autônoma do indivíduo, surge uma das principais tarefas de importância do professor, qual seja, a de, considerando a visível importância do aprendizado e da execução de uma leitura crítica, em razão de ser ela a porta para todo o restante do processo de crescimento humano, fomentar o aprofundamento da consciência desse mesmo indivíduo em construção, no sentido de ele vir a capturar o significado de tal importância em sua particular existência.
Segundo palavras de Freire (id. p. 32), Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino.

Não se trata, segundo ele, de uma qualidade do professor, tampouco de uma metodologia de ensino, mas sim, deve inserir-se em um projeto maior e de mais alcance, ou seja, deve se dar um verdadeiro acompanhamento de todo o processo que é e que envolve a vida daquele indivíduo que vem junto a si aprender. Neste sentido, é básico que o modelo escolar como um todo seja construído no rumo da administração de uma conduta respeitosa quanto aos saberes inerentes ao meio social do indivíduo. Ao ensinar os conteúdos, o professor deve ser capaz de apresentá-los com elementos e subsídios saídos do cotidiano daquele que aprende, o que, por si só, já é um dínamo facilitador do aprendizado.
Não só o ato de aprender necessita da existência de senso crítico, mas também o ato de ensinar o exige, uma vez que se busque o rigor e a exatidão, na tentativa de ministrar os conceitos e os conteúdos, os atos e as demonstrações educativas. Baseado no rigorismo e na exatidão pode o professor administrar a curiosidade do aluno, conduzindo-o à inquietação e, portanto, à própria criatividade resolutiva de situações e desenvolvimento da autonomia.
Dentre os recursos que apresenta o mestre, é básico que demonstre aos seus alunos a coerência em sua postura humana e em suas idéias. O que diz precisa, necessariamente, andar casado com os exemplos que dá aos alunos. Assim, a formação moral, para que seja transmitida com toda uma base específica ou com todo um fundamento ético, necessita de um aprofundamento não só naquilo que se transmite, mas na própria atuação particular do professor. Esse aprofundamento necessário, no tocante à moral do educador, é exatamente o fator que poderá permitir-lhe uma participação livre do medo e do risco de expor suas idéias e seus conceitos, bem como isenta-o de uma atuação discriminatória quando é o outro indivíduo que se expõe. Trata-se de uma certeza no modus vivendi servindo de base ou de modelo indireto à formação de outro indivíduo.
A experiência histórica, política, cultural e social dos homens e das mulheres jamais pode se dar "virgem" do conflito entre as forças que obstaculizam
a busca da assunção de si por parte dos indivíduos e dos grupos e das forças que
trabalham em favor daquela assunção (id. p. 47).

Ensinar Não é Transferir Conhecimento
Quando entro em sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico
e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não a transferir conhecimento (id., p. 52).
O saber científico que o professor apresenta aos alunos é de suma importância no processo de ensinar, mas nem de longe o é absoluto, na medida em que se deve dar espaço aos valores inerentes à formação tanto do caráter como do senso crítico, embasados que são em conteúdos intrínsecos ao que de humano possuímos. É preciso que se leve em consideração, tanto ao aprender quanto ao ensinar, as medidas possíveis das quais dispomos, seja as de superação, seja as de falibilidade na atuação particular a cada indivíduo.
É o meu bom senso que me adverte de que exercer a minha autoridade de professor na classe, tomando decisões, orientando atividades, estabelecendo tarefas, cobrando a produção individual e coletiva do grupo não é sinal de autoritarismo de minha parte. É a minha autoridade cumprindo o seu dever (id., p. 68).
Muita confusão se faz ainda, tanto nos meios como nos modelos escolares a respeito da questão da autoridade. Pessoas há que definem de forma confusa os limites entre a autoridade e o autoritarismo e, por extensão, da licenciosidade com a liberdade. Não é preciso que se utilize de elementos autoritários, a conseguir a adesão do educando ao modo de condução do processo escolar como um todo, tampouco na condução mais particular de sala de aula, mas que se possa dispor sempre, isto sim, do bom senso, da lógica construtiva e de um engajamento profundo, na busca da construção da pretendida autonomia.
O ato de ensinar deve ser revestido de um envoltório político, basicamente porque inerente ao homem e suas peculiaridades sociais, mas jamais potencialmente partidário ou ideológico, embora deva ministrar os conhecimentos no sentido de uma conscientização da extensão da realidade social de cada um. Ao formar seu senso político de forma não ideológica, não impositiva, mas por atuação crítica, o indivíduo desenvolve as ferramentas a por si só, desviar-se de elementos antagônicos ao desenvolvimento social. Se ele o faz, contudo, pautado em ideologias politiqueiras, torna-se um refém de sua própria condição social e, por vezes até escravo dela.
Ao apropriarmo-nos do saber científico, assim como dos conhecimentos vários, de um modo geral, desenvolvemos, além dos indivíduos, numa ótica particular, toda a sociedade, na medida em que passe ela a utilizar-se dos novos recursos disponíveis a tornar possíveis melhorias na execução de serviços e tarefas em favor das pessoas.
Não há assim, uma forma de atuação neutra em todo o âmbito social, mas há sim uma interação contínua, mesmo que se dê de uma forma negativa ou passiva, entre os indivíduos. Não há como se possa desconsiderar a necessidade premente de todos os indivíduos poderem alcançar um determinado patamar ou uma determinada condição educacional, não importando de onde venham ou qual a sua condição social de origem.

Ensinar é Uma Especificidade Humana
O ato de ensinar, segundo Freire (id. p. 102), exige segurança, competência profissional e generosidade. Professores há que, embora tecnicamente preparados não dispõem das capacidades mais básicas como, por exemplo, a capacidade de doação. A capacitação humana dotada de valores morais e éticos pelo professor envolve aquele que aprende na confiança e no respeito, tanto de seus particulares princípios como de seu entendimento de mundo.
A necessidade mais básica aos atos de ensino e de aprendizado anda estreitamente ligada ao modelo democrático de atuação. O falar e o escutar devem ter um mesmo peso ao menos, senão mais ao escutar o outro. O conhecimento não pode ser imposto ao outro, ou colocado imperativamente, em conformidade com um modelo determinado antecipadamente, mas sim deve ser construído em conjunto, de uma forma aberta, interativa e interdisciplinar.
Isso porque se dispusermos de um ensinamento ministrado de forma impositiva, por certo longe estaremos do ideal democrático que se impõe acima de qualquer outro, qual seja, o diálogo aberto e pleno, a valorização interativa dos saberes individuais ou ainda, a comparação dialética desses saberes e das cognições. Vê-se, portanto, que ao mestre de capacidade humana desenvolvida são inerentes posições ou intenções como a do querer bem ao seu aluno e de respeitá-lo; de tolerá-lo de forma humilde e alegre; de estar receptivo aos novos paradigmas e aos novos entendimentos, à esperança e à justiça, sob pena de não estar apto a uma prática pedagógio-progressista.

CONCEITOS
A Educação
No entendimento de Paulo Freire, a educação não é apenas uma ação singular onde, em bancos escolares, educandos recebem verdades impostas pelo mestre, sem que haja respeito e diálogo aberto. Não deve ser um simples repasse de conteúdos e de saberes.
Educação é o ato de pensar e ensinar; é o aprender a pensar certo, ato que necessita de respeito face ao educando e ao educador. A educação precisa de diálogo, de ação crítica e de reconhecimento por parte do educador acerca dos saberes trazidos pelos educandos. A educação deve embasar a luta para melhores condições de vida.

A Escola
Deve ser antes de mais nada um local aberto à alegria, ao diálogo, à franqueza, à beleza e acima de tudo, com as condições devidas para que tanto o aluno como o professor sintam-se valorizados, respeitados e amparados. A escola deve ser um ambiente totalmente livre de preconceitos e de discriminações, onde se pode pensar certo, buscar a compreensão do outro e principalmente, onde se pode ver o desenvolvimento da cultura de um povo. Ela deve ter as condições materiais para que educador e educando se desenvolvam sem constrangimentos.

A Sociedade
Para Freire a sociedade como homens e mulheres, se faz historicamente e em lutas por direitos, em conscientização dos deveres; deve tratar de despertar os indivíduos a não aceitarem calados as suas condições sub-humanas de vida. Deve esforçar-se por demonstrar ao indivíduo que busca aprender, que uma vida miserável não é apenas uma situação única do indivíduo e responsabilidade unicamente dele, mas sim que existe todo um ato político e histórico que acaba por fazer com que ele venha a encontrar-se em uma tal situação.

A Democracia
Uma ação de diálogo e de solidariedade, onde qualquer luta do cidadão deve passar pelo recebimento e pela doação de respeito, pelo desenvolvimento da dignidade do homem em face as várias políticas. Trata -se de um ato de pensar criticamente e a possibilidade de agir pelo bem e sempre em busca de melhores condições de vida.

A Autonomia
É a confiança no seu histórico particular, é o desenvolvimento desta confiança, com ações de auto determinação, de respeito e de democracia. É o pensar certo, de olhar o mundo buscando sempre o fundamento das coisas, é ter a responsabilidade sobre os seus atos e assumi-los, ou ainda, é ter a transparência em sua fala e a coerência em suas ações.

O Professor
É um ser que deve ter sempre em primeiro plano o compromisso com a verdade e que deve expô-la em suas ações, que deve ler o mundo sem descuidar de ler a palavra, que precisa ouvir os seus alunos sem com isso jamais calar-se, que deve lutar pela dignidade de condições para seu ato (trabalho, salário). Não apenas repassar as verdades prontas, mas dialogar sobre estas verdades. Deve ter a liberdade de optar pela autoridade à licenciosidade dos descompromissados e autoritarismo dos fracos que temem sempre ser julgados. O professor opta pela liberdade e pela beleza, luta e se anima pela esperança, vê o sol nos olhos de uma criança em um dia chuvoso de fome e descaso. É o ser que ama o inacabado acima de tudo, que tolera e ensina, que sabe-se também inacabado, admite isto e aprende.

O Aluno
O aluno é um indivíduo repleto de culturas e de saberes desenvolvidos fora da escola, que vem a ela em processo de formação, aberto, inacabado, curioso, inteligente, é um ser que merece todo o respeito e toda a dignidade no ato de aprender. Diz o autor, textualmente (id., p.), (...) jamais pude entender a educação como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos. Exatamente assim é que vejo os professores e os alunos, serem com alma, sonhos, emoções e desejos, ávidos por ensinar e aprender.

ANÁLISE DA OBRA

Freire nos mostra, não apenas nesta sua obra, mas em todas as suas outras, o comprometimento que tem com a verdade e com a criticidade que lhe é peculiar. Sem deixar de lado, por nenhum momento, o seu espaço humano e humanizador, deixa-nos à vontade para ver como somos incompletos e que não estamos sós, abre espaço para a nossa reflexão e nos posiciona entre a teoria e a prática, na medida certa do humano e científico.
Relacionando esta obra com o estudo da sociologia, vê-se que Freire é um marxista e sempre ao longo de sua vida, lutou pela dignidade dos desfavorecidos na sociedade, através de muitos embates pela reforma agrária, pelas classes trabalhadoras e pelos camponeses. Tentou levar ao povo saberes necessários para a conscientização e não para a conformidade de suas condições. É possível dizer que Freire dispunha de uma visão da sociedade embasada no paradigma do conflito, onde a sociedade compõe-se de vários grupos em situações conflitantes e a dominação que é feita por imposição da classe dominante.
Como Illich, é considerado um utópico, pois acredita na educação como libertadora, que vem mostrar a responsabilidade social e política de cada indivíduo, buscando mostrar sempre a relação teoria e prática, através da reflexão que gera uma nova ação, visando a educação como um ato que subsidia a formação conscientizadora para a luta pelas classes desfavorecidas em função de melhores condições e o não conformismo pela dominação radical, seja ela de direita ou de esquerda.

CONCLUSÃO

Cabe ao professor buscar cada vez com mais intensidade tanto o conhecimento como o aprimoramento técnico, muito embora não deva nunca descuidar do sentido humano, ou seja, precisa ter em conta sempre que o indivíduo aquele que dele aprende, deve ser tratado com tolerância, respeito, carinho e doação.
Ao mesmo passo é preciso, mesmo estando permanentemente rumando no sentido da construção da autonomia em outro ser, tratando com elementos sociais de sensibilidade individual pertinentes a outro indivíduo, que atue no sentido de um modelo social político que possa garantir sua subsistência e dignidade profissional.
O professor, no ato de ensinar deve ser coerente quanto à atitude que toma e o texto que prega. Deve ser capaz de avaliar sua prática e de estar aberto aos novos conhecimentos e às novas técnicas que a todo momento surgem. Tem que ter a visão moldada a reconhecer os elementos pertinentes a uma determinada cultura e relacioná-la com os elementos que nela vivem. Deve dispor da curiosidade e enfim, da alegria e da esperança.



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
1 FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo : Paz e Terra, 1996.

Projeto Primavera:

Projeto Primavera:

JUSTIFICATIVA: Vivenciar a alegria da estação com a presença multicolorida das flores, levando a criança a contemplar as suas maravilhas e o bem-estar que a convivência da natureza proporciona.

OBJETIVOS:
Trabalhar a percepção tátil, a coordenação motora fina e grossa, as linhas, as cores, os aromas, as medidas, os numerais, formas, texturas e as conseqüências.
Despertar o interesse pela preservação do meio ambiente, assim como as formas de vida e sua sobrevivência.
Observar o meio natural (Fotossíntese), desenvolvendo a curiosidade e a prática investigativa de cada criança.

CONTEÚDO:
Atividades orais e escritas;
Plantio de diferentes mudas;
Floreira;
Jogos: Quebra Cabeça, Jogo da Memória, Dominó e Bingo de Flores;
Brincadeiras;
Músicas e Danças;
Móbiles;
Culinária (apresentação de chá);
Pinturas, Dobraduras e Recortes;
Matérias recicláveis (sucatas);
Histórias com fantoches;
Confecção de livros;
Técnicas de pintura;
Máscaras de flores trabalhadas;
Argila;
Massinha de modelar;
Confecção de esculturas em flores;
Painéis;
Parlendas; Contos; Adivinhas; Trava-língua; Poemas; Rimas;
Exposição de telas – Juscelino Soares (Girassol);
Passeio à floricultura – Rosa de Sharon.

MATERIAS UTILIZADOS:
Papéis (sulfite, cartolina, color set, jornal, bubina, crepom, laminado).
Palitos de churrasco; Garfinhos de madeira.
Sucatas (garrafa pet de diferentes cores e tamanhos; tampinhas de plásticos).
Tesoura com ponta arredondada, cola branca e colorida, lápis de cor, giz de cera, giz de lousa, régua, gliter.
Agulha de costura, fio de náilon, barbante, fita adesiva transparente, botão, pincel, E.V.A. tela.
Sementes e mudas.

A IDADE DE SER FELIZ

A IDADE DE SER FELIZ

Existe somente uma idade para a gente ser feliz, somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos e ter energia bastante para realizá-los a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para a gente se encantar com a vida e viver apaixonadamente e desfrutar tudo com toda intensidade sem medo nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente pode criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança e vestir-se com todas as cores e experimentar todos os sabores e entregar-se a todos os amores sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem em que todo desafio é mais um convite à luta que a gente enfrenta com toda disposição de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na vida da gente chama-se PRESENTE e tem a duração
do instante que passa...

Mário Quintana

quinta-feira, 15 de julho de 2010

As Nove Pequenas Coisas

As Nove Pequenas Coisas que os Pais, Avós, Professores e outros parentes dispostos a ajudar, podem fazer para auxiliar as Crianças a aprenderem e a criar gosto pela leitura.


Leia em Voz Alta, para seu filho diariamente. Do nascimento até os seis meses, ele provávelmente não vai entender nada do que você está lendo, mas tudo bem assim mesmo.
A idéia é que ele fique familiarizado com o som de sua voz e se acostume a ver e a tocar em Livros.
Para começar, use Livros Ilustrados sem textos ou com bem poucas palavras. Aponte para as cores e figuras e diga seus nomes. Livros simples podem ensinar a criança coisas que mais tarde vão ajudá-la a aprender a ler.
Por exemplo, ela aprenderá sobre a estrutura da linguagem - que existem espaços entre as palavras e que a escrita vai da esquerda para a direita.
Conte Histórias. Encoraje sua criança a fazer perguntas e a falar sobre a história que acabou de ouvir.
Pergunte-lhe se pode adivinhar o que vai acontecer em seguida conforme for contando a história, com os personagens ou coisas da trama. Aponte para as coisas no livro que ela possa associar com o seu dia a dia. "Veja este desenho de macaco. Você lembra do macaco que vimos no Circo?"
Procure por Programas de Leitura. Se você não for um bom leitor, programas voluntários ou governamentais, na sua comunidade ou cidade, voltados para o desenvolvimento da leitura, lhe darão a oportunidade de melhorar sua própria leitura ou então ler para seu filho. Amigos e parentes podem também ler para seu filho, e também pessoas voluntárias que na maioria dos centros comunitários ou outras instituições estão disponíveis e gostam de fazer isso.
Compre um Dicionário Infantil. Procure por um que tenha figuras ao lado das palavras. Então começe a desenvolver o hábito de brincando com a criança, provocá-la dizendo frases tais como: "Vamos descobrir o que isto significa?"
Faça com que Materiais de Escrever, tais como lápis, giz de cera, lápis coloridos, canetas, etc, estejam sempre disponíveis e a vista de todos.
Procure assistir programas Educativos na TV e Vídeo. Programas infantis onde a criança possa se divertir, aprender o alfabeto e os sons de cada letra.
Visite com frequencia uma Biblioteca. Começe fazendo visitas semanais à biblioteca ou livraria quando seu filho for ainda muito pequeno. Se possível cuide para que ele tenha seu próprio cartão de acesso e empréstimo de livros. Muitas bibliotecas permitem que crianças tenham seus próprios cartões personalizados com seu nome impresso, caso ela queira, exigindo apenas que um adulto seja o responsável e assine por ela.
Leia você mesmo. O que você faz serve de exemplo para o seu filho.

O LUGAR DA PSICOMOTRICIDADE NA PEDAGOGIA FREINET E O LUGAR DA PEDAGOGIA FREINET NA PSICOMOTRICIDADE

O LUGAR DA PSICOMOTRICIDADE NA PEDAGOGIA FREINET E O LUGAR DA PEDAGOGIA FREINET NA PSICOMOTRICIDADE
Rosa M. Prista
A grande contribuição de Freinet ainda tão negligenciado em nosso mundo e principalmente pelos chamados construtivistas foi o retorno aos aspectos naturais da vida.É negligenciado porque o modo de viver de nossa sociedade é calcado no TER (o valor das coisas está na possibilidade de acumular bens, títulos, etc.) e não no SER (prioridade sobre os recursos e conteúdos internos do ser humano).

EM BUSCA DA TOTALIDADE
Em primeiro lugar gostaria de me colocar no lugar de educadora e repassar alguns aspectos históricos de minha vida pois são estes que me permitem estar no lugar de autora deste artigo.
Nos anos 70 como iniciante na arte de educar senti a ausência de bases teóricas que justificassem a prática que exercia com crianças na chamada fase de alfabetização. Todas as aulas eram construídas conjuntamente com os alunos, costumávamos fazer aulas-passeio, construir histórias, ter momentos de prazer juntos. Esta forma "diferente" de ministrar aulas me levou a grandes bloqueios institucionais, chegando uma vez a agressão física de uma responsável alegando que "esta professora apenas brinca, não dá nada". Tal questão apesar de penosa para mim que estava com dezenove anos me levou a ter que justificar teoricamente meu trabalho e como esta busca sempre esteve presente fui promovida pela diretora do núcleo, professora Vitória Régia.. Foi assim que além da escola que ministrava aulas eu pude dividir a minha experiência com mais trinta e sete escolas...
Como uma educadora bastante inquieta, inquietação que perpetuo até hoje, trilhei caminhos diferentes: formação inicial de cunho pedagógico, depois psicológico. Sentia o fosso existente entre o teórico e o prático e busquei na Psicomotricidade algo que unisse. O corpo até então visto como elo também não me satisfez porque não o percebia como instrumento, fragmentado, corpo, mente. A busca de uma formação francesa com Françoise Desobeau acalmou em parte minhas angústias quando era devolvido ao Homem a própria fonte de criação e de saúde. O caminho era este naquele momento. Buscando me aperfeiçoar entrei para o mestrado, consciente de que o desejo de avançar era grande e queria algo que pudesse contribuir para um repensar autêntico e humilde da realidade do ser humano. Busquei trabalhar com a potencialidade humana questionando o trabalho com superdotados e introduzindo a Psicomotricidade como referencial na busca da compreensão e redefinição da pessoa do superdotado. Esbarrei na questão acadêmica, no fosso já sentido em minha formação de Psicologia. Tal assunto não tinha orientador capaz de discutir sobre o tema e não havia bibliografia disponível sobre esta busca epistemológica. Num ato que considero bastante heróico, a professora Eliane Gerck que orientava metodologicamente a minha dissertação mesmo desconhecendo os temas em questão enfrentou as barreiras institucionais. Em 1991 defendida a tese e aprovada por unanimidade, busquei caminhar para fora do país numa ambivalência de sentimentos muito grande - o desejo de acreditar no meu país, de buscar a compreensão da totalidade do Homem em minha prática e de buscar informações externas que aprimorassem estas idéias. Nesta busca em julho de 1991 conheci Manuel Sérgio Vieira e Cunha, que será mencionado neste artigo, fundador da ciência Motricidade Humana. Neste contato simples e direto com uma pessoa tão rica quanto Manuel Sérgio descobri que a filosofia poderia aprofundar questões até então extremamente necessárias. Assim, na leitura de seus livros, de seus discursos, encontrei o caminho do interdisciplinar e de algo que pudesse modificar, criar ao nível da prática com o ser humano algo entre o desejável e o possível e mudasse o enfoque do mecânico para o humano, do externo para o interno, na busca do próprio Homem.
Descoberta feita, profundidade teórica encontrada modifiquei todo o trabalho até então desenvolvido e numa busca de síntese reencontrei a pedagogia de Freinet quando inauguramos uma escola de artes, CRIA - CRIAÇÕES ARTÍSTICAS no Rio de Janeiro. Na mesma época sou chamada pelo Movimento nacional da Pedagogia Freinet de forma a contribuir com o meu conhecimento, com a minha experiência, seja a nível da criança ou a nível do adulto - ensino universitário. Nesta conferência minha vida tomou um rumo diferente, de retorno aos fatos naturais da vida. Conheci a educadora Flaviana Granzotto, doutora em Psicologia que aprendeu na vida e soube mostrar que a humildade é um bem inestimável. Foi com ela que (re) aprendi a ver a vida sob várias faces iluminadas a partir de minha busca interna, rompendo definitivamente com o cartesianismo e reencontrando minha totalidade. Descobri a força de uma educadora que trouxe a este país as idéias de Freinet e que na sua simplicidade grandiosa continuava a acreditar na formação de homens neste país. Não há porque ocultar que a presença desta senhora na platéia me fez tremer... fui invadida por uma sensação estranha, intuitiva de que algo em minha vida mudaria para sempre ao conhecê-la.



FREINET E PSICOMOTRICIDADE, UM ENCONTRO NATURAL NA VIDA



Nesta conferência procurei fazer um corte epistemológico e estudar a contribuição de Freinet a Psicomotricidade e como esta pode enriquecer a proposta pedagógica de Freinet. Sem dúvida que os anos de prática com as crianças vieram a tona...
Para iniciar esta reflexão gostaria de citar Marx: "O essencial vai além das aparências". Esta frase me fez retomar ao início de minha vida de educadora. Para compreender Freinet preciso olhar além do concreto e do objetivo, preciso sentir a subjetividade do Homem e isto perpassa por um olhar profundo e diferenciado em nossos recursos internos.
Psicomotricidade teve sua origem nos estudos de Piaget e Wallon, ambos considerados os pais da Psicomotricidade; um biólogo, o outro, psicólogo.
Pedagogia Freinet; Freinet, educador...
Que lugar ocupam no processo histórico e de formação da humanidade?
Entendo que possuem o lugar de contribuição grandiosa e portanto essenciais e eternas...
Falar desta síntese é colocar cada um na sua especificidade mas sobretudo colocá-los na busca da compreensão humana.
Busquei encontrar uma palavra que simbolizasse esta síntese e que nos conduzisse a complexidade do ser humano. A palavra escolhida foi movimento.
Movimento: "Ato ou processo de deslocar-se. Agitar em várias direções. Dar Vida, animação, desenvolvimento". Ferreira, 1986
Numa ótica filogenética, movimento nos leva as origens da vida. Não há vida sem movimento e a parada de movimento é a morte.Numa ótica ontogenética que revive a filogenética, somos movimento desde a formação da célula original.Precisamos falar da existência (da vida e da morte), do desenvolvimento, do lugar que estas contribuições deram ao mundo, buscando epistemologicamente colocar a Pedagogia Freinet no lugar do mérito, no reconhecimento de seu valor na formação da espécie humana.Como educador, Freinet não apenas contribuiu para a formação de seus alunos, mas da formação da espécie, lembrando que cada um de nós ao permitirmos o desenvolvimento de um Ser, permitimos a evolução da espécie.
E nós, que nos denominamos educadores, também estamos levando esta contribuição a nossa espécie?
Importante registrar que apesar de todo este conhecimento acumulado sobre a evolução humana, resistimos a colocar em prática informações valiosas escritas, discutidas, (re)escritas em vários livros, dissertações, teses....
Na Educação, como em qualquer ciência tem que haver espaço para o vazio e foi a partir do vazio, e de sua presença inquietante que Freinet pôde visualizar uma outra forma de SER. Rejeitou o adestramento de corpos e mentes, não sentiu prazer em controlar seus alunos e pacificá-los a seu bel prazer. Foi sua ferida simbólica (aquilo que nos motiva a agir em direção a algo), a escuta de si, de seus limites e de seus recursos internos que o levaram a transcender e ousar criar uma forma original de SER - ser pessoa/ser educador, compartilhando prazer com seus alunos.
A grande contribuição de Freinet ainda tão negligenciado em nosso mundo e principalmente pelos chamados construtivistas foi o retorno aos aspectos naturais da vida.É negligenciado porque o modo de viver de nossa sociedade é calcado no TER (o valor das coisas está na possibilidade de acumular bens, títulos, etc.) e não no SER (prioridade sobre os recursos e conteúdos internos do ser humano). A mudança de enfoque do TER para SER, permite a liberação do desejo e consequentemente a construção do conhecimento. Esta construção só ocorre quando o corpo inteiro está em movimento. Não basta matricular a cabeça do aluno na escola, é preciso trazer o corpo inteiro. Nossas crianças estão cada vez mais restritas nas suas expressões, não por sua incapacidade mas por uma relação perversa onde impedimos que o organismo do ser humano se manifeste. Perversa porque satisfaz as nossas necessidades reprimidas que necessitam visualizar quietudes, organizações em detrimento da necessidade de nossas crianças pela inquietação, desorganização para a busca decisiva de fatos, dados e encontros. A organização chega como uma forma natural de construir algo, construir um conhecimento que surge nas visceras e toma o corpo inteiro.
Este impedimento se inicia muito mais cedo do que imaginamos. Desde tenra idade somos convidados a agir de forma obediente e passiva. Em nosso país o objetivo de prevenção na educação e saúde é totalmente negligenciado. Gastamos financeiramente tanto em programas terapêuticos e reeducativos! Muito poderia ser poupado se nos preocupássemos em acompanhar naturalmente o desenvolvimento humano atendendo as suas necessidades básicas.
Na vida intra-uterina o bebê inicia seu contato com o mundo, prepara-se para ser ativo num mundo que muito poderá lhe exigir se houver atenção a condições bio-psico e sociais. É praticamente nulo o atendimento pré natal que inclua a preocupação psico-afetiva e relacional. A indução a cesareanas é extrema, o apelo a amamentação é exagerado não levando em conta a figura materna e toda a desestruturação de sua imagem corporal. A mãe tem que dar o leite de seu peito, diz a propaganda. Sem negligenciar a importância do leite materno, onde fica a preocupação do tipo de relação afetiva esta mãe pode ter com seu bebê? Por que este fator é preponderante para o futuro deste ser? O atendimento na maternidade, a forma de lidar com as mães, parentes e bebês está desvinculado do lado humano. A impossibilidade de garantir a assistência às mães que logo têm que retornar ao emprego; ausência de locais adequados para os bebês ficarem, a existência de creches particulares e comunitárias que pouco se preocupam com o aspecto da evolução humana; Aos poucos esta criança aprende a controlar seu desejo, a seguir o padrão estabelecido pelo social. Um exemplo típico é observar uma criança tentando subir a escada de um escorrega. A maioria dos adultos não permite a criança exercitar as suas habilidades psicomotoras, imediatamente segura o corpo da criança e lhe dá o seu movimento... Chega a escola. Na educação infantil aprende a controlar a hora de fazer suas necessidades fisiológicas...em breve as psicológicas e sociais! Não é seu corpo que diz a hora de precisar usar o banheiro, mas o professor, que no apelo de uma falsa ordem, impede este organismo de se expressar. O aumento do uso de folhas mimeografadas com desenhos prontos, com contornos a serem seguidos, impedem que a coordenação motora encontre o seu equilíbrio que só pode tê-lo com espaços amplos, respeito e incentivo. A antecipação destes movimentos vão prejudicando, interferindo e restringindo funções psiconeurológicas essenciais ao Homem. Este processo não se encerra aqui, tende a piorar a partir da alfabetização como se este processo se iniciasse aos seis anos. Grande engano!!! Chega o segundo e terceiro graus e continuamos a não respeitar fases fundamentais. Tudo em nome do controle social. A conclusão de todo este processo é: "Não seja você, não acredite em você. Faça como todo mundo!
Freinet fez o contrário: "Seja você, confie em você, viva a sua vida. Seja autor de seus atos, modifique a sua história e a do coletivo".
Iniciamos assim a quebra de um dos aspectos básicos da evolução humana e que Freinet tentou mostrar as pessoas de sua época. Todo e qualquer ser humano tem a capacidade de se auto-organizar, criar e recriar seu mundo fazendo a história pessoal e do coletivo.
Em seus escritos encontramos: "A aptidão da criança para pensar e para se exprimir, a passagem de um estado de menoridade mental e afetiva à dignidade de um ser capaz de construir experimentalmente a sua personalidade e de orientar o seu destino." 1
Vale ainda ressaltar que o grande medo do professor é o grau de liberdade que podemos dar ao aluno. Só aprendemos a ter este termômetro com a experiência de nossa própria liberdade. Vale ainda ressaltar que só aprendemos a ter liberdade com limites, mas só aprendemos a construir limites na vivência da liberdade.
Neste ponto precisamos rever qual a concepção de mundo que temos. Thomas Kuhn em seu livro A revolução das estruturas científicas nos mostra que a ciência só pode avançar a partir do surgimento de situações de crise. Foi num momento de crise no âmbito educacional que as técnicas de Freinet foram surgindo e preenchendo espaços até então vazios. Mas mais uma vez tentamos controlar um processo profundo e elaborado. Tentamos reduzir Freinet as suas técnicas em detrimento de um projeto de vida.
Kuhn nos questiona mostrando o quanto perdemos de idéias originais por estarmos condicionados aos modelos padronizados e muito seguros...
Rollo May lembra em seu livro A coragem de criar que só teremos coragem de criar quando pudermos assumir a autoria de nosso trabalho e lançá-lo ao mundo seja por escrito ou pelo verbal. Importante ainda é a exposição que se segue, sendo inclusive alvo de críticas.
Parece fundamental entendermos qual o paradigma que norteia nosso trabalho, nosso cotidiano. Paradigma quer dizer a concepção de mundo que temos. No meu entender nossa visão de mundo é bastante enraizada no paradigma cartesiano, ou seja, os fenômenos são separados em instâncias independentes; corpo e mente, sendo a razão a instância que detém o poder. A Pedagogia Freinet se encaixa no paradigma sistêmico, ou seja, os fenômenos são interdependentes. Nada está separado de nada e é o encontro, a possibilidade de integração de idéias, conteúdos, arte e filosofia que leva a sínteses cada vez mais elaboradas.
Neste caminhar, refutando o mecânico, o fragmento, apesar de compreender sua importância, cabe esclarecer a visão de Psicomotricidade que possuo. Esta ciência não pode ser entendida como a ligação corpo - mente, esta definição é insuficiente para expressar a complexidade dos fenômenos humanos. Prefiro definí-la como a ciência do Homem em Movimento, das relações consigo e com o mundo, com o corpo, através do corpo e de sua corporeidade.
Com esta pequena definição dos paradigmas e da Psicomotricidade podemos indagar porque continuamos cartesianos apesar de tantas informações científicas que nos apontam para o caminho do sistêmico.
Thomas Kuhn nos disse que mudar de paradigma nos leva a zero no que sabemos. É recomeçar partindo do nada. O êxito passado não garante o atual.Tal mudança provoca medos e incertezas e poucas pessoas neste mundo estão preparados internamente para acreditar em suas próprias capacidades de análise e sínteses.
Mas estamos falando de concepção de mundo e o nosso fazer se concretiza pela motricidade e por um corpo que age. Que corpo é este? Estamos falando de um corpo que é expressão do inconsciente, além dos fatores conscientes, de um corpo que não é só controle, mas um corpo que é apaixonante e portanto inesperado e sem controle. Estamos falando de um corpo que não é instrumento mas que define a história do ser humano. Um corpo que sou eu!
Fomos educados num sistema onde a escola era para ensinar e aprender, para transmitir conhecimentos e saberes. Nosso corpo foi sabiamente disciplinado. O corpo teve que permanecer como instrumento a serviço de um pensamento racional. Um corpo que eu pensava controlar e o eu.
La Pierre, 1986, diz que a maioria de nós teve seu corpo alinhado seguramente atrás de carteiras, com horários rígidos, de forma a não se agitar, exceto, quando podíamos, na hora do recreio, de forma a não perturbar a ordem e a autoridade do professor. Este corpo é o corpo funcional. Corpo do Tônus, das emoções devidamente controlados, das sensações e posturas fragmentadas, da coordenação padronizada, da lateralidade e do equilíbrio organizado socialmente. Corpo usado como instrumento de conhecimento - conhecimento abstrato do tempo, espaço, ritmos, do Esquema corporal.
Mas o corpo não é só isto! O corpo também é expressão de desejos e pulsões. Este expressar não encontra lugar na escola tradicional, mas Freinet permitiu a existência deste nível e surpreso ficou quando ao libertar o corpo de seus alunos percebeu que a motivação e o aproveitamento foram enormes.

"Eu não contava que os alunos se mantivessem apaixonados, durante muito tempo... Enganava-me. Os alunos se apaixonaram pela composição e pela impressão, coisas que não eram simples. As crianças deixaram-se prender pelas novas tarefas, não porque a ordenação dos caracteres pudesse ser atraente, mas sobretudo porque tínhamos descoberto um processo natural e normal da cultura, à observação, o pensamento, a expressão natural tornavam-se texto perfeito..." 2
"Eis a primeira descoberta de base que ia permitir que fosse reconsiderado progressivamente todo o ensino. Tínhamos restabelecido um circuito natural, interrompido pela escolástica. O pensamento e a vida da criança podiam agora tornar-se elementos de enorme importância cultural". 3
Este corpo vai além do funcional, é um corpo relacional, corpo dos fantasmas, corpo do tônus e afetividade, do relacionamento interpessoal, da sexualidade, da imagem corporal. Imagem esta que depende do reforço do ambiente. Freinet tinha confiança em seus alunos, acreditava neles, valorizava cada ato. Como ele nos disse: "Depositei confiança nas crianças e tive razão".
Toda a recusa a este corpo relacional aprendida na infância acompanha o adulto e por isto é tão difícil sermos autores de nossos trabalhos.
As informações são necessárias mas são inutilizáveis em uma relação psicomotora enquanto não tiverem sido vividos ao nível do corpo e integrados ao nível da pessoa global. Os educadores sentem a introdução do corpo vivido como perda de sua autoridade. Devemos questionar a nossa postura. Desejamos continuar adestrando corpos e verificar a não realização de nossos alunos, ou questionar a nossa prática, nossa própria limitação e começar a abrir espaços dentro de nós e na relação com o outro?
Vitor da Fonseca, 1989, afirma que como educadores estamos muito secos de afeto, de espaço, de tempo e tornamos nosso interior muito estéril para um trabalho de relação autêntica.
Freinet tinha um profundo respeito pelos seus alunos e sua autoridade era indiscutível. Um dos itens fundamentais na prática psicomotora é o respeito ao ser humano com quem se mantém relação. Isto só é atingido quando o educador vivencia seu corpo. O educador precisa viver nas condições de uma comunicação não verbal, a sua relação com o próprio corpo, com o objeto, o espaço, o outro, o grupo; que seja confrontado com estas situações para compreender na vivência sobre suas necessidades, seus impedimentos, suas defesas e suas potencialidades.
As atividades de livre expressão permitem ao ser humano resgatar o sentido de iniciativa, de autonomia, de coordenação de seus movimentos. Com estas atividades as pessoas deixam cair as armaduras, criam, recriam, experimentam a liberdade num espaço onde investem plenamente sua afetividade a nível energético (sistema límbico), a educação seria prazerosa e criativa, atendendo ao mais íntimo do ser humano. Freinet chegou até este íntimo!
Somente a tensão emocional da busca, da descoberta, com as modulações tônicas que lhes servem de base, permitem aos conhecimentos integrarem-se realmente constituindo elaboradas sínteses . Estamos falando da construção de alunos, ou melhor homens, críticos, inteligentes, capazes de transformações.
Vale retornar algumas informações sobre o assunto e buscar uma nova síntese. Piaget demonstra que a inteligência se constrói na adaptação do Homem ao meio através dos processos de assimilação e acomodação. Neste movimento contínuo é que o indivíduo incorpora o mundo exterior e vai se transformando. Não há dúvida que o corpo é imprescindível no perceber (assimilação) e nos movimentos (acomodação) e é este conjunto de adaptações que permitirá a evolução da inteligência prática em reflexiva. Seu paradigma é ação.
Wallon discute a unidade indissolúvel entre o indivíduo e o meio. Não há separação entre o homem e sua cultura. Para este, o desenvolvimento biológico (maturação nervosa e psicomotora) e o desenvolvimento social (apropriação da experiência social), são condições um do outro. O movimento é a característica existencial da criança e determinada pela relação afetiva entre criança/adulto. O movimento é a expressão deste ser em sua totalidade, sendo sua primeira e eterna estrutura de relação com o mundo, onde se edificará a inteligência, onde noções e informações que existem fora do indivíduo e que são patrimônio da cultura são anexados. Sua preocupação foi de organizar uma concepção que provocasse a influência entre EMOÇÃO/MOTRICIDADE; MOTRICIDADE/ REPRESENTAÇÃO; REPRESENTAÇÃO/CARÁTER. Seu paradigma é afetividade.
A escola soviética contribui informando que a criança se desenvolve na interação com o meio, interiorizando aquisições extrabiológicas e apropriando-se da experiência sócio-histórica dos adultos, ou seja, da humanidade. Seu paradigma é a interação e o posicionamento histórico.
Freinet, educador, prática exercida através da ação, da afetividade, da interação. Foi o primeiro a exercitar estes três paradigmas de forma interdependente. Sua prática está inserida numa nova visão de Homem.
No encontro destes autores surge uma busca antropossociológica, ou seja, colocar o Homem na sua própria complexidade. E só resgatando o lugar do corpo poderemos evitar a fragmentação já tão existente e que não nos permite visualizar e sentir a totalidade do ser humano, na constituição de sua singularidade.
De todos estes escritos, movimento se fez, integração aconteceu. A busca antropossociológica se fundamenta na ciência da Motricidade Humana, fundada por Manuel Sérgio. Nesta teoria, o Homem é definido sob alguns aspectos:
CARÊNCIA - Sempre falta algo que leva o Homem a um movimento de busca. Todo movimento depende da ausência.
INTENCIONALIDADE - O Homem caminha em sua busca dando significados a seus atos.
MOVIMENTO - É o ato que leva o Homem a agir, a concretizar seus desejos.
PRAXIDADE - O Homem age e reage, pelo trabalho, ao mundo em que vive. O Homem se constrói quando constrói sua própria história.
LINGUAGEM - Sistema de símbolos onde o Homem é o único capaz de criar a nível verbal e não verbal.
LUDICIDADE - Atividade vital para o ser humano. Todas as atividades devem incluir a alegria, a manifestação solidária., o prazer.
INTERSUBJETIVIDADE - O Homem está no mundo com o outro. A vivência do Homem é relacional.
TRANSCENDÊNCIA - O Homem busca o sentido da vida. Busca ser cada vez mais desenvolvido não para competir com o outro mas para ser mais.
TOTALIDADE - Implica em multiplicidade, contradição, complexidade.
Freinet criou uma prática pedagógica que respeitava o Homem em sua totalidade. A matriz teórica da Motricidade Humana permite visualizar a grandeza do trabalho deste mestre. O tempo todo os alunos estavam em movimento e mobilizando desejos, capacidades foi desenvolvendo Homens com competência. Tive o prazer de conhecer um senhor que foi aluno na Escola de Freinet em Vence e suas lembranças marcam que só há um objetivo para nossas crianças e adolescentes estarem indo para a escola e este objetivo é SER FELIZ. Apesar de ser uma pessoa e como tal fragmentada e com dificuldades próprias, Freinet foi um HOMEM EM MOVIMENTO!
Freinet tinha uma abordagem dialética do conhecimento. Assumiu um verdadeiro compromisso com o ser humano, no respeito ao sujeito histórico, com intenção a transcendência. Freinet se colocou como Homem, como uma pessoa que usou o diálogo verbal, mas também o visual, gestual, tônico, corporal, enfim, Freinet foi capaz de ir além da relação professor/aluno para o ENCONTRO VERDADEIRO e mais ainda, fez a crítica da teoria deixando suas reflexões sempre abertas para mudanças.
Análise feita, a síntese é inevitável. Urge colocar o Homem em sua complexidade, de aceitarmos a visão sistêmica de mundo e abarcar sem medo uma pedagogia científica.
Para terminar no estilo que também é pertinente a Freinet, citarei um provérbio chinês de forma que a decisão seja de cada um, assim como foi a minha apartir do dia que assumi publicamente a minha paixão pela vida.
"Dois homens olham por uma janela. Um vê as grades, o outro as estrelas".
EM BUSCA DA TOTALIDADE
Em primeiro lugar gostaria de me colocar no lugar de educadora e repassar alguns aspectos históricos de minha vida pois são estes que me permitem estar no lugar de autora deste artigo.
Nos anos 70 como iniciante na arte de educar senti a ausência de bases teóricas que justificassem a prática que exercia com crianças na chamada fase de alfabetização. Todas as aulas eram construídas conjuntamente com os alunos, costumávamos fazer aulas-passeio, construir histórias, ter momentos de prazer juntos. Esta forma "diferente" de ministrar aulas me levou a grandes bloqueios institucionais, chegando uma vez a agressão física de uma responsável alegando que "esta professora apenas brinca, não dá nada". Tal questão apesar de penosa para mim que estava com dezenove anos me levou a ter que justificar teoricamente meu trabalho e como esta busca sempre esteve presente fui promovida pela diretora do núcleo, professora Vitória Régia.. Foi assim que além da escola que ministrava aulas eu pude dividir a minha experiência com mais trinta e sete escolas...
Como uma educadora bastante inquieta, inquietação que perpetuo até hoje, trilhei caminhos diferentes: formação inicial de cunho pedagógico, depois psicológico. Sentia o fosso existente entre o teórico e o prático e busquei na Psicomotricidade algo que unisse. O corpo até então visto como elo também não me satisfez porque não o percebia como instrumento, fragmentado, corpo, mente. A busca de uma formação francesa com Françoise Desobeau acalmou em parte minhas angústias quando era devolvido ao Homem a própria fonte de criação e de saúde. O caminho era este naquele momento. Buscando me aperfeiçoar entrei para o mestrado, consciente de que o desejo de avançar era grande e queria algo que pudesse contribuir para um repensar autêntico e humilde da realidade do ser humano. Busquei trabalhar com a potencialidade humana questionando o trabalho com superdotados e introduzindo a Psicomotricidade como referencial na busca da compreensão e redefinição da pessoa do superdotado. Esbarrei na questão acadêmica, no fosso já sentido em minha formação de Psicologia. Tal assunto não tinha orientador capaz de discutir sobre o tema e não havia bibliografia disponível sobre esta busca epistemológica. Num ato que considero bastante heróico, a professora Eliane Gerck que orientava metodologicamente a minha dissertação mesmo desconhecendo os temas em questão enfrentou as barreiras institucionais. Em 1991 defendida a tese e aprovada por unanimidade, busquei caminhar para fora do país numa ambivalência de sentimentos muito grande - o desejo de acreditar no meu país, de buscar a compreensão da totalidade do Homem em minha prática e de buscar informações externas que aprimorassem estas idéias. Nesta busca em julho de 1991 conheci Manuel Sérgio Vieira e Cunha, que será mencionado neste artigo, fundador da ciência Motricidade Humana. Neste contato simples e direto com uma pessoa tão rica quanto Manuel Sérgio descobri que a filosofia poderia aprofundar questões até então extremamente necessárias. Assim, na leitura de seus livros, de seus discursos, encontrei o caminho do interdisciplinar e de algo que pudesse modificar, criar ao nível da prática com o ser humano algo entre o desejável e o possível e mudasse o enfoque do mecânico para o humano, do externo para o interno, na busca do próprio Homem.
Descoberta feita, profundidade teórica encontrada modifiquei todo o trabalho até então desenvolvido e numa busca de síntese reencontrei a pedagogia de Freinet quando inauguramos uma escola de artes, CRIA - CRIAÇÕES ARTÍSTICAS no Rio de Janeiro. Na mesma época sou chamada pelo Movimento nacional da Pedagogia Freinet de forma a contribuir com o meu conhecimento, com a minha experiência, seja a nível da criança ou a nível do adulto - ensino universitário. Nesta conferência minha vida tomou um rumo diferente, de retorno aos fatos naturais da vida. Conheci a educadora Flaviana Granzotto, doutora em Psicologia que aprendeu na vida e soube mostrar que a humildade é um bem inestimável. Foi com ela que (re) aprendi a ver a vida sob várias faces iluminadas a partir de minha busca interna, rompendo definitivamente com o cartesianismo e reencontrando minha totalidade. Descobri a força de uma educadora que trouxe a este país as idéias de Freinet e que na sua simplicidade grandiosa continuava a acreditar na formação de homens neste país. Não há porque ocultar que a presença desta senhora na platéia me fez tremer... fui invadida por uma sensação estranha, intuitiva de que algo em minha vida mudaria para sempre ao conhecê-la.



FREINET E PSICOMOTRICIDADE, UM ENCONTRO NATURAL NA VIDA



Nesta conferência procurei fazer um corte epistemológico e estudar a contribuição de Freinet a Psicomotricidade e como esta pode enriquecer a proposta pedagógica de Freinet. Sem dúvida que os anos de prática com as crianças vieram a tona...
Para iniciar esta reflexão gostaria de citar Marx: "O essencial vai além das aparências". Esta frase me fez retomar ao início de minha vida de educadora. Para compreender Freinet preciso olhar além do concreto e do objetivo, preciso sentir a subjetividade do Homem e isto perpassa por um olhar profundo e diferenciado em nossos recursos internos.
Psicomotricidade teve sua origem nos estudos de Piaget e Wallon, ambos considerados os pais da Psicomotricidade; um biólogo, o outro, psicólogo.
Pedagogia Freinet; Freinet, educador...
Que lugar ocupam no processo histórico e de formação da humanidade?
Entendo que possuem o lugar de contribuição grandiosa e portanto essenciais e eternas...
Falar desta síntese é colocar cada um na sua especificidade mas sobretudo colocá-los na busca da compreensão humana.
Busquei encontrar uma palavra que simbolizasse esta síntese e que nos conduzisse a complexidade do ser humano. A palavra escolhida foi movimento.
Movimento: "Ato ou processo de deslocar-se. Agitar em várias direções. Dar Vida, animação, desenvolvimento". Ferreira, 1986
Numa ótica filogenética, movimento nos leva as origens da vida. Não há vida sem movimento e a parada de movimento é a morte.Numa ótica ontogenética que revive a filogenética, somos movimento desde a formação da célula original.Precisamos falar da existência (da vida e da morte), do desenvolvimento, do lugar que estas contribuições deram ao mundo, buscando epistemologicamente colocar a Pedagogia Freinet no lugar do mérito, no reconhecimento de seu valor na formação da espécie humana.Como educador, Freinet não apenas contribuiu para a formação de seus alunos, mas da formação da espécie, lembrando que cada um de nós ao permitirmos o desenvolvimento de um Ser, permitimos a evolução da espécie.
E nós, que nos denominamos educadores, também estamos levando esta contribuição a nossa espécie?
Importante registrar que apesar de todo este conhecimento acumulado sobre a evolução humana, resistimos a colocar em prática informações valiosas escritas, discutidas, (re)escritas em vários livros, dissertações, teses....
Na Educação, como em qualquer ciência tem que haver espaço para o vazio e foi a partir do vazio, e de sua presença inquietante que Freinet pôde visualizar uma outra forma de SER. Rejeitou o adestramento de corpos e mentes, não sentiu prazer em controlar seus alunos e pacificá-los a seu bel prazer. Foi sua ferida simbólica (aquilo que nos motiva a agir em direção a algo), a escuta de si, de seus limites e de seus recursos internos que o levaram a transcender e ousar criar uma forma original de SER - ser pessoa/ser educador, compartilhando prazer com seus alunos.
A grande contribuição de Freinet ainda tão negligenciado em nosso mundo e principalmente pelos chamados construtivistas foi o retorno aos aspectos naturais da vida.É negligenciado porque o modo de viver de nossa sociedade é calcado no TER (o valor das coisas está na possibilidade de acumular bens, títulos, etc.) e não no SER (prioridade sobre os recursos e conteúdos internos do ser humano). A mudança de enfoque do TER para SER, permite a liberação do desejo e consequentemente a construção do conhecimento. Esta construção só ocorre quando o corpo inteiro está em movimento. Não basta matricular a cabeça do aluno na escola, é preciso trazer o corpo inteiro. Nossas crianças estão cada vez mais restritas nas suas expressões, não por sua incapacidade mas por uma relação perversa onde impedimos que o organismo do ser humano se manifeste. Perversa porque satisfaz as nossas necessidades reprimidas que necessitam visualizar quietudes, organizações em detrimento da necessidade de nossas crianças pela inquietação, desorganização para a busca decisiva de fatos, dados e encontros. A organização chega como uma forma natural de construir algo, construir um conhecimento que surge nas visceras e toma o corpo inteiro.
Este impedimento se inicia muito mais cedo do que imaginamos. Desde tenra idade somos convidados a agir de forma obediente e passiva. Em nosso país o objetivo de prevenção na educação e saúde é totalmente negligenciado. Gastamos financeiramente tanto em programas terapêuticos e reeducativos! Muito poderia ser poupado se nos preocupássemos em acompanhar naturalmente o desenvolvimento humano atendendo as suas necessidades básicas.
Na vida intra-uterina o bebê inicia seu contato com o mundo, prepara-se para ser ativo num mundo que muito poderá lhe exigir se houver atenção a condições bio-psico e sociais. É praticamente nulo o atendimento pré natal que inclua a preocupação psico-afetiva e relacional. A indução a cesareanas é extrema, o apelo a amamentação é exagerado não levando em conta a figura materna e toda a desestruturação de sua imagem corporal. A mãe tem que dar o leite de seu peito, diz a propaganda. Sem negligenciar a importância do leite materno, onde fica a preocupação do tipo de relação afetiva esta mãe pode ter com seu bebê? Por que este fator é preponderante para o futuro deste ser? O atendimento na maternidade, a forma de lidar com as mães, parentes e bebês está desvinculado do lado humano. A impossibilidade de garantir a assistência às mães que logo têm que retornar ao emprego; ausência de locais adequados para os bebês ficarem, a existência de creches particulares e comunitárias que pouco se preocupam com o aspecto da evolução humana; Aos poucos esta criança aprende a controlar seu desejo, a seguir o padrão estabelecido pelo social. Um exemplo típico é observar uma criança tentando subir a escada de um escorrega. A maioria dos adultos não permite a criança exercitar as suas habilidades psicomotoras, imediatamente segura o corpo da criança e lhe dá o seu movimento... Chega a escola. Na educação infantil aprende a controlar a hora de fazer suas necessidades fisiológicas...em breve as psicológicas e sociais! Não é seu corpo que diz a hora de precisar usar o banheiro, mas o professor, que no apelo de uma falsa ordem, impede este organismo de se expressar. O aumento do uso de folhas mimeografadas com desenhos prontos, com contornos a serem seguidos, impedem que a coordenação motora encontre o seu equilíbrio que só pode tê-lo com espaços amplos, respeito e incentivo. A antecipação destes movimentos vão prejudicando, interferindo e restringindo funções psiconeurológicas essenciais ao Homem. Este processo não se encerra aqui, tende a piorar a partir da alfabetização como se este processo se iniciasse aos seis anos. Grande engano!!! Chega o segundo e terceiro graus e continuamos a não respeitar fases fundamentais. Tudo em nome do controle social. A conclusão de todo este processo é: "Não seja você, não acredite em você. Faça como todo mundo!
Freinet fez o contrário: "Seja você, confie em você, viva a sua vida. Seja autor de seus atos, modifique a sua história e a do coletivo".
Iniciamos assim a quebra de um dos aspectos básicos da evolução humana e que Freinet tentou mostrar as pessoas de sua época. Todo e qualquer ser humano tem a capacidade de se auto-organizar, criar e recriar seu mundo fazendo a história pessoal e do coletivo.
Em seus escritos encontramos: "A aptidão da criança para pensar e para se exprimir, a passagem de um estado de menoridade mental e afetiva à dignidade de um ser capaz de construir experimentalmente a sua personalidade e de orientar o seu destino." 1
Vale ainda ressaltar que o grande medo do professor é o grau de liberdade que podemos dar ao aluno. Só aprendemos a ter este termômetro com a experiência de nossa própria liberdade. Vale ainda ressaltar que só aprendemos a ter liberdade com limites, mas só aprendemos a construir limites na vivência da liberdade.
Neste ponto precisamos rever qual a concepção de mundo que temos. Thomas Kuhn em seu livro A revolução das estruturas científicas nos mostra que a ciência só pode avançar a partir do surgimento de situações de crise. Foi num momento de crise no âmbito educacional que as técnicas de Freinet foram surgindo e preenchendo espaços até então vazios. Mas mais uma vez tentamos controlar um processo profundo e elaborado. Tentamos reduzir Freinet as suas técnicas em detrimento de um projeto de vida.
Kuhn nos questiona mostrando o quanto perdemos de idéias originais por estarmos condicionados aos modelos padronizados e muito seguros...
Rollo May lembra em seu livro A coragem de criar que só teremos coragem de criar quando pudermos assumir a autoria de nosso trabalho e lançá-lo ao mundo seja por escrito ou pelo verbal. Importante ainda é a exposição que se segue, sendo inclusive alvo de críticas.
Parece fundamental entendermos qual o paradigma que norteia nosso trabalho, nosso cotidiano. Paradigma quer dizer a concepção de mundo que temos. No meu entender nossa visão de mundo é bastante enraizada no paradigma cartesiano, ou seja, os fenômenos são separados em instâncias independentes; corpo e mente, sendo a razão a instância que detém o poder. A Pedagogia Freinet se encaixa no paradigma sistêmico, ou seja, os fenômenos são interdependentes. Nada está separado de nada e é o encontro, a possibilidade de integração de idéias, conteúdos, arte e filosofia que leva a sínteses cada vez mais elaboradas.
Neste caminhar, refutando o mecânico, o fragmento, apesar de compreender sua importância, cabe esclarecer a visão de Psicomotricidade que possuo. Esta ciência não pode ser entendida como a ligação corpo - mente, esta definição é insuficiente para expressar a complexidade dos fenômenos humanos. Prefiro definí-la como a ciência do Homem em Movimento, das relações consigo e com o mundo, com o corpo, através do corpo e de sua corporeidade.
Com esta pequena definição dos paradigmas e da Psicomotricidade podemos indagar porque continuamos cartesianos apesar de tantas informações científicas que nos apontam para o caminho do sistêmico.
Thomas Kuhn nos disse que mudar de paradigma nos leva a zero no que sabemos. É recomeçar partindo do nada. O êxito passado não garante o atual.Tal mudança provoca medos e incertezas e poucas pessoas neste mundo estão preparados internamente para acreditar em suas próprias capacidades de análise e sínteses.
Mas estamos falando de concepção de mundo e o nosso fazer se concretiza pela motricidade e por um corpo que age. Que corpo é este? Estamos falando de um corpo que é expressão do inconsciente, além dos fatores conscientes, de um corpo que não é só controle, mas um corpo que é apaixonante e portanto inesperado e sem controle. Estamos falando de um corpo que não é instrumento mas que define a história do ser humano. Um corpo que sou eu!
Fomos educados num sistema onde a escola era para ensinar e aprender, para transmitir conhecimentos e saberes. Nosso corpo foi sabiamente disciplinado. O corpo teve que permanecer como instrumento a serviço de um pensamento racional. Um corpo que eu pensava controlar e o eu.
La Pierre, 1986, diz que a maioria de nós teve seu corpo alinhado seguramente atrás de carteiras, com horários rígidos, de forma a não se agitar, exceto, quando podíamos, na hora do recreio, de forma a não perturbar a ordem e a autoridade do professor. Este corpo é o corpo funcional. Corpo do Tônus, das emoções devidamente controlados, das sensações e posturas fragmentadas, da coordenação padronizada, da lateralidade e do equilíbrio organizado socialmente. Corpo usado como instrumento de conhecimento - conhecimento abstrato do tempo, espaço, ritmos, do Esquema corporal.
Mas o corpo não é só isto! O corpo também é expressão de desejos e pulsões. Este expressar não encontra lugar na escola tradicional, mas Freinet permitiu a existência deste nível e surpreso ficou quando ao libertar o corpo de seus alunos percebeu que a motivação e o aproveitamento foram enormes.

"Eu não contava que os alunos se mantivessem apaixonados, durante muito tempo... Enganava-me. Os alunos se apaixonaram pela composição e pela impressão, coisas que não eram simples. As crianças deixaram-se prender pelas novas tarefas, não porque a ordenação dos caracteres pudesse ser atraente, mas sobretudo porque tínhamos descoberto um processo natural e normal da cultura, à observação, o pensamento, a expressão natural tornavam-se texto perfeito..." 2
"Eis a primeira descoberta de base que ia permitir que fosse reconsiderado progressivamente todo o ensino. Tínhamos restabelecido um circuito natural, interrompido pela escolástica. O pensamento e a vida da criança podiam agora tornar-se elementos de enorme importância cultural". 3
Este corpo vai além do funcional, é um corpo relacional, corpo dos fantasmas, corpo do tônus e afetividade, do relacionamento interpessoal, da sexualidade, da imagem corporal. Imagem esta que depende do reforço do ambiente. Freinet tinha confiança em seus alunos, acreditava neles, valorizava cada ato. Como ele nos disse: "Depositei confiança nas crianças e tive razão".
Toda a recusa a este corpo relacional aprendida na infância acompanha o adulto e por isto é tão difícil sermos autores de nossos trabalhos.
As informações são necessárias mas são inutilizáveis em uma relação psicomotora enquanto não tiverem sido vividos ao nível do corpo e integrados ao nível da pessoa global. Os educadores sentem a introdução do corpo vivido como perda de sua autoridade. Devemos questionar a nossa postura. Desejamos continuar adestrando corpos e verificar a não realização de nossos alunos, ou questionar a nossa prática, nossa própria limitação e começar a abrir espaços dentro de nós e na relação com o outro?
Vitor da Fonseca, 1989, afirma que como educadores estamos muito secos de afeto, de espaço, de tempo e tornamos nosso interior muito estéril para um trabalho de relação autêntica.
Freinet tinha um profundo respeito pelos seus alunos e sua autoridade era indiscutível. Um dos itens fundamentais na prática psicomotora é o respeito ao ser humano com quem se mantém relação. Isto só é atingido quando o educador vivencia seu corpo. O educador precisa viver nas condições de uma comunicação não verbal, a sua relação com o próprio corpo, com o objeto, o espaço, o outro, o grupo; que seja confrontado com estas situações para compreender na vivência sobre suas necessidades, seus impedimentos, suas defesas e suas potencialidades.
As atividades de livre expressão permitem ao ser humano resgatar o sentido de iniciativa, de autonomia, de coordenação de seus movimentos. Com estas atividades as pessoas deixam cair as armaduras, criam, recriam, experimentam a liberdade num espaço onde investem plenamente sua afetividade a nível energético (sistema límbico), a educação seria prazerosa e criativa, atendendo ao mais íntimo do ser humano. Freinet chegou até este íntimo!
Somente a tensão emocional da busca, da descoberta, com as modulações tônicas que lhes servem de base, permitem aos conhecimentos integrarem-se realmente constituindo elaboradas sínteses . Estamos falando da construção de alunos, ou melhor homens, críticos, inteligentes, capazes de transformações.
Vale retornar algumas informações sobre o assunto e buscar uma nova síntese. Piaget demonstra que a inteligência se constrói na adaptação do Homem ao meio através dos processos de assimilação e acomodação. Neste movimento contínuo é que o indivíduo incorpora o mundo exterior e vai se transformando. Não há dúvida que o corpo é imprescindível no perceber (assimilação) e nos movimentos (acomodação) e é este conjunto de adaptações que permitirá a evolução da inteligência prática em reflexiva. Seu paradigma é ação.
Wallon discute a unidade indissolúvel entre o indivíduo e o meio. Não há separação entre o homem e sua cultura. Para este, o desenvolvimento biológico (maturação nervosa e psicomotora) e o desenvolvimento social (apropriação da experiência social), são condições um do outro. O movimento é a característica existencial da criança e determinada pela relação afetiva entre criança/adulto. O movimento é a expressão deste ser em sua totalidade, sendo sua primeira e eterna estrutura de relação com o mundo, onde se edificará a inteligência, onde noções e informações que existem fora do indivíduo e que são patrimônio da cultura são anexados. Sua preocupação foi de organizar uma concepção que provocasse a influência entre EMOÇÃO/MOTRICIDADE; MOTRICIDADE/ REPRESENTAÇÃO; REPRESENTAÇÃO/CARÁTER. Seu paradigma é afetividade.
A escola soviética contribui informando que a criança se desenvolve na interação com o meio, interiorizando aquisições extrabiológicas e apropriando-se da experiência sócio-histórica dos adultos, ou seja, da humanidade. Seu paradigma é a interação e o posicionamento histórico.
Freinet, educador, prática exercida através da ação, da afetividade, da interação. Foi o primeiro a exercitar estes três paradigmas de forma interdependente. Sua prática está inserida numa nova visão de Homem.
No encontro destes autores surge uma busca antropossociológica, ou seja, colocar o Homem na sua própria complexidade. E só resgatando o lugar do corpo poderemos evitar a fragmentação já tão existente e que não nos permite visualizar e sentir a totalidade do ser humano, na constituição de sua singularidade.
De todos estes escritos, movimento se fez, integração aconteceu. A busca antropossociológica se fundamenta na ciência da Motricidade Humana, fundada por Manuel Sérgio. Nesta teoria, o Homem é definido sob alguns aspectos:
CARÊNCIA - Sempre falta algo que leva o Homem a um movimento de busca. Todo movimento depende da ausência.
INTENCIONALIDADE - O Homem caminha em sua busca dando significados a seus atos.
MOVIMENTO - É o ato que leva o Homem a agir, a concretizar seus desejos.
PRAXIDADE - O Homem age e reage, pelo trabalho, ao mundo em que vive. O Homem se constrói quando constrói sua própria história.
LINGUAGEM - Sistema de símbolos onde o Homem é o único capaz de criar a nível verbal e não verbal.
LUDICIDADE - Atividade vital para o ser humano. Todas as atividades devem incluir a alegria, a manifestação solidária., o prazer.
INTERSUBJETIVIDADE - O Homem está no mundo com o outro. A vivência do Homem é relacional.
TRANSCENDÊNCIA - O Homem busca o sentido da vida. Busca ser cada vez mais desenvolvido não para competir com o outro mas para ser mais.
TOTALIDADE - Implica em multiplicidade, contradição, complexidade.
Freinet criou uma prática pedagógica que respeitava o Homem em sua totalidade. A matriz teórica da Motricidade Humana permite visualizar a grandeza do trabalho deste mestre. O tempo todo os alunos estavam em movimento e mobilizando desejos, capacidades foi desenvolvendo Homens com competência. Tive o prazer de conhecer um senhor que foi aluno na Escola de Freinet em Vence e suas lembranças marcam que só há um objetivo para nossas crianças e adolescentes estarem indo para a escola e este objetivo é SER FELIZ. Apesar de ser uma pessoa e como tal fragmentada e com dificuldades próprias, Freinet foi um HOMEM EM MOVIMENTO!
Freinet tinha uma abordagem dialética do conhecimento. Assumiu um verdadeiro compromisso com o ser humano, no respeito ao sujeito histórico, com intenção a transcendência. Freinet se colocou como Homem, como uma pessoa que usou o diálogo verbal, mas também o visual, gestual, tônico, corporal, enfim, Freinet foi capaz de ir além da relação professor/aluno para o ENCONTRO VERDADEIRO e mais ainda, fez a crítica da teoria deixando suas reflexões sempre abertas para mudanças.
Análise feita, a síntese é inevitável. Urge colocar o Homem em sua complexidade, de aceitarmos a visão sistêmica de mundo e abarcar sem medo uma pedagogia científica.
Para terminar no estilo que também é pertinente a Freinet, citarei um provérbio chinês de forma que a decisão seja de cada um, assim como foi a minha apartir do dia que assumi publicamente a minha paixão pela vida.
"Dois homens olham por uma janela. Um vê as grades, o outro as estrelas".

Este é o documento científico 1 do acervo do I NucleRio - I Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Pedagogia Freinet e Psicomotricidade do Rio de Janeiro e gentilmente cedido a Sociedade Brasileira Ramain Thiers para este livro. ·PRISTA, R.M - Superdotados e Psicomotricidade: um resgate a unidade do ser, Petrópolis, Ed. Vozes, 1993.. ·FONSECA, V. - Escola, escola, quem és tu? Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1987 ·FROMM, E. - TER ou SER? Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1980. ·SÉRGIO, M. - Para uma epistemologia da Motricidade Humana, Lisboa, Compendium, 1987. ·LAPIERRE, A. e AUCOUTURIER - A simbologia do movimento, Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1986. FREINET, C. 1. As técnicas Freinet na Escola Moderna, Lisboa, Ed. Estampa, 1975. 2. Idem 3. Pedagogia do Bom Senso, Ed. Moraes.
Publicado em 01/01/2000

Rosa M. Prista - Psicóloga, psicomotricista. Fundadora e Mediadora da Psicomotricidade Sistêmica. Mestre em Psicologia escolar, autora do livro: SUPERDOTADOS E PSICOMOTRICIDADE, UM RESGATE A UNIDA DO SER. Doutoranda em Psicologia e Qualidade de Vida.

O alfabeto não pode faltar:

O alfabeto não pode faltar:
http://revistaescola.abril.com.br/lingua-portuguesa/alfabetizacao-inicial/ele-nao-pode-faltar-427752.shtml

As Nove Pequenas Coisas que os Pais, Avós, Professores e outros parentes dispostos a ajudar, podem fazer para auxiliar as Crianças a aprenderem e a criar gosto pela leitura.


Leia em Voz Alta, para seu filho diariamente. Do nascimento até os seis meses, ele provávelmente não vai entender nada do que você está lendo, mas tudo bem assim mesmo.
A idéia é que ele fique familiarizado com o som de sua voz e se acostume a ver e a tocar em Livros.
Para começar, use Livros Ilustrados sem textos ou com bem poucas palavras. Aponte para as cores e figuras e diga seus nomes. Livros simples podem ensinar a criança coisas que mais tarde vão ajudá-la a aprender a ler.
Por exemplo, ela aprenderá sobre a estrutura da linguagem - que existem espaços entre as palavras e que a escrita vai da esquerda para a direita.
Conte Histórias. Encoraje sua criança a fazer perguntas e a falar sobre a história que acabou de ouvir.
Pergunte-lhe se pode adivinhar o que vai acontecer em seguida conforme for contando a história, com os personagens ou coisas da trama. Aponte para as coisas no livro que ela possa associar com o seu dia a dia. "Veja este desenho de macaco. Você lembra do macaco que vimos no Circo?"
Procure por Programas de Leitura. Se você não for um bom leitor, programas voluntários ou governamentais, na sua comunidade ou cidade, voltados para o desenvolvimento da leitura, lhe darão a oportunidade de melhorar sua própria leitura ou então ler para seu filho. Amigos e parentes podem também ler para seu filho, e também pessoas voluntárias que na maioria dos centros comunitários ou outras instituições estão disponíveis e gostam de fazer isso.
Compre um Dicionário Infantil. Procure por um que tenha figuras ao lado das palavras. Então começe a desenvolver o hábito de brincando com a criança, provocá-la dizendo frases tais como: "Vamos descobrir o que isto significa?"
Faça com que Materiais de Escrever, tais como lápis, giz de cera, lápis coloridos, canetas, etc, estejam sempre disponíveis e a vista de todos.
Procure assistir programas Educativos na TV e Vídeo. Programas infantis onde a criança possa se divertir, aprender o alfabeto e os sons de cada letra.
Visite com frequencia uma Biblioteca. Começe fazendo visitas semanais à biblioteca ou livraria quando seu filho for ainda muito pequeno. Se possível cuide para que ele tenha seu próprio cartão de acesso e empréstimo de livros. Muitas bibliotecas permitem que crianças tenham seus próprios cartões personalizados com seu nome impresso, caso ela queira, exigindo apenas que um adulto seja o responsável e assine por ela.
Leia você mesmo. O que você faz serve de exemplo para o seu filho.

A escrita

Quando as crianças começam a aprendizagem da língua escrita, saber
escrever o seu próprio nome é, muitas vezes, um ponto de partida que
lhes permite refletir sobre algumas características da escrita. O nome
é uma palavra muito familiar e significativa para as crianças e pode
com a ajuda do professor levá-las a realizar muitas aprendizagens
linguísticas motivadoras da leitura e da escrita. As crianças poderão
descobrir que:
• A escrita do seu nome é estável, que mantém as suas características
independentemente do contexto em que aparece;
• As crianças podem reconhecê-lo com relativa facilidade;
• À medida que vão reconhecendo a relação que existe entre a letra
inicial do seu nome e o som inicial podem estabelecer relações
similares com outros nomes e com outras palavras;
• Podem estabelecer comparações entre a grafia do seu nome e a de
outras palavras;
• Quando as crianças ainda não conhecem muitas letras, o nome pode
servir como um “abecedário”. Elas prestam mais atenção às letras que
fazem parte do seu nome, já que as consideram como que fazendo parte
delas.
Por estas razões é muito importante trabalhar com as listas de chamada
(vendo quem está presente e quem falta). Além de ser uma atividade
coletiva, permite a troca de idéias entre as crianças.