O LUGAR DA PSICOMOTRICIDADE NA PEDAGOGIA FREINET E O LUGAR DA PEDAGOGIA FREINET NA PSICOMOTRICIDADE
Rosa M. Prista
A grande contribuição de Freinet ainda tão negligenciado em nosso mundo e principalmente pelos chamados construtivistas foi o retorno aos aspectos naturais da vida.É negligenciado porque o modo de viver de nossa sociedade é calcado no TER (o valor das coisas está na possibilidade de acumular bens, títulos, etc.) e não no SER (prioridade sobre os recursos e conteúdos internos do ser humano).
EM BUSCA DA TOTALIDADE
Em primeiro lugar gostaria de me colocar no lugar de educadora e repassar alguns aspectos históricos de minha vida pois são estes que me permitem estar no lugar de autora deste artigo.
Nos anos 70 como iniciante na arte de educar senti a ausência de bases teóricas que justificassem a prática que exercia com crianças na chamada fase de alfabetização. Todas as aulas eram construídas conjuntamente com os alunos, costumávamos fazer aulas-passeio, construir histórias, ter momentos de prazer juntos. Esta forma "diferente" de ministrar aulas me levou a grandes bloqueios institucionais, chegando uma vez a agressão física de uma responsável alegando que "esta professora apenas brinca, não dá nada". Tal questão apesar de penosa para mim que estava com dezenove anos me levou a ter que justificar teoricamente meu trabalho e como esta busca sempre esteve presente fui promovida pela diretora do núcleo, professora Vitória Régia.. Foi assim que além da escola que ministrava aulas eu pude dividir a minha experiência com mais trinta e sete escolas...
Como uma educadora bastante inquieta, inquietação que perpetuo até hoje, trilhei caminhos diferentes: formação inicial de cunho pedagógico, depois psicológico. Sentia o fosso existente entre o teórico e o prático e busquei na Psicomotricidade algo que unisse. O corpo até então visto como elo também não me satisfez porque não o percebia como instrumento, fragmentado, corpo, mente. A busca de uma formação francesa com Françoise Desobeau acalmou em parte minhas angústias quando era devolvido ao Homem a própria fonte de criação e de saúde. O caminho era este naquele momento. Buscando me aperfeiçoar entrei para o mestrado, consciente de que o desejo de avançar era grande e queria algo que pudesse contribuir para um repensar autêntico e humilde da realidade do ser humano. Busquei trabalhar com a potencialidade humana questionando o trabalho com superdotados e introduzindo a Psicomotricidade como referencial na busca da compreensão e redefinição da pessoa do superdotado. Esbarrei na questão acadêmica, no fosso já sentido em minha formação de Psicologia. Tal assunto não tinha orientador capaz de discutir sobre o tema e não havia bibliografia disponível sobre esta busca epistemológica. Num ato que considero bastante heróico, a professora Eliane Gerck que orientava metodologicamente a minha dissertação mesmo desconhecendo os temas em questão enfrentou as barreiras institucionais. Em 1991 defendida a tese e aprovada por unanimidade, busquei caminhar para fora do país numa ambivalência de sentimentos muito grande - o desejo de acreditar no meu país, de buscar a compreensão da totalidade do Homem em minha prática e de buscar informações externas que aprimorassem estas idéias. Nesta busca em julho de 1991 conheci Manuel Sérgio Vieira e Cunha, que será mencionado neste artigo, fundador da ciência Motricidade Humana. Neste contato simples e direto com uma pessoa tão rica quanto Manuel Sérgio descobri que a filosofia poderia aprofundar questões até então extremamente necessárias. Assim, na leitura de seus livros, de seus discursos, encontrei o caminho do interdisciplinar e de algo que pudesse modificar, criar ao nível da prática com o ser humano algo entre o desejável e o possível e mudasse o enfoque do mecânico para o humano, do externo para o interno, na busca do próprio Homem.
Descoberta feita, profundidade teórica encontrada modifiquei todo o trabalho até então desenvolvido e numa busca de síntese reencontrei a pedagogia de Freinet quando inauguramos uma escola de artes, CRIA - CRIAÇÕES ARTÍSTICAS no Rio de Janeiro. Na mesma época sou chamada pelo Movimento nacional da Pedagogia Freinet de forma a contribuir com o meu conhecimento, com a minha experiência, seja a nível da criança ou a nível do adulto - ensino universitário. Nesta conferência minha vida tomou um rumo diferente, de retorno aos fatos naturais da vida. Conheci a educadora Flaviana Granzotto, doutora em Psicologia que aprendeu na vida e soube mostrar que a humildade é um bem inestimável. Foi com ela que (re) aprendi a ver a vida sob várias faces iluminadas a partir de minha busca interna, rompendo definitivamente com o cartesianismo e reencontrando minha totalidade. Descobri a força de uma educadora que trouxe a este país as idéias de Freinet e que na sua simplicidade grandiosa continuava a acreditar na formação de homens neste país. Não há porque ocultar que a presença desta senhora na platéia me fez tremer... fui invadida por uma sensação estranha, intuitiva de que algo em minha vida mudaria para sempre ao conhecê-la.
FREINET E PSICOMOTRICIDADE, UM ENCONTRO NATURAL NA VIDA
Nesta conferência procurei fazer um corte epistemológico e estudar a contribuição de Freinet a Psicomotricidade e como esta pode enriquecer a proposta pedagógica de Freinet. Sem dúvida que os anos de prática com as crianças vieram a tona...
Para iniciar esta reflexão gostaria de citar Marx: "O essencial vai além das aparências". Esta frase me fez retomar ao início de minha vida de educadora. Para compreender Freinet preciso olhar além do concreto e do objetivo, preciso sentir a subjetividade do Homem e isto perpassa por um olhar profundo e diferenciado em nossos recursos internos.
Psicomotricidade teve sua origem nos estudos de Piaget e Wallon, ambos considerados os pais da Psicomotricidade; um biólogo, o outro, psicólogo.
Pedagogia Freinet; Freinet, educador...
Que lugar ocupam no processo histórico e de formação da humanidade?
Entendo que possuem o lugar de contribuição grandiosa e portanto essenciais e eternas...
Falar desta síntese é colocar cada um na sua especificidade mas sobretudo colocá-los na busca da compreensão humana.
Busquei encontrar uma palavra que simbolizasse esta síntese e que nos conduzisse a complexidade do ser humano. A palavra escolhida foi movimento.
Movimento: "Ato ou processo de deslocar-se. Agitar em várias direções. Dar Vida, animação, desenvolvimento". Ferreira, 1986
Numa ótica filogenética, movimento nos leva as origens da vida. Não há vida sem movimento e a parada de movimento é a morte.Numa ótica ontogenética que revive a filogenética, somos movimento desde a formação da célula original.Precisamos falar da existência (da vida e da morte), do desenvolvimento, do lugar que estas contribuições deram ao mundo, buscando epistemologicamente colocar a Pedagogia Freinet no lugar do mérito, no reconhecimento de seu valor na formação da espécie humana.Como educador, Freinet não apenas contribuiu para a formação de seus alunos, mas da formação da espécie, lembrando que cada um de nós ao permitirmos o desenvolvimento de um Ser, permitimos a evolução da espécie.
E nós, que nos denominamos educadores, também estamos levando esta contribuição a nossa espécie?
Importante registrar que apesar de todo este conhecimento acumulado sobre a evolução humana, resistimos a colocar em prática informações valiosas escritas, discutidas, (re)escritas em vários livros, dissertações, teses....
Na Educação, como em qualquer ciência tem que haver espaço para o vazio e foi a partir do vazio, e de sua presença inquietante que Freinet pôde visualizar uma outra forma de SER. Rejeitou o adestramento de corpos e mentes, não sentiu prazer em controlar seus alunos e pacificá-los a seu bel prazer. Foi sua ferida simbólica (aquilo que nos motiva a agir em direção a algo), a escuta de si, de seus limites e de seus recursos internos que o levaram a transcender e ousar criar uma forma original de SER - ser pessoa/ser educador, compartilhando prazer com seus alunos.
A grande contribuição de Freinet ainda tão negligenciado em nosso mundo e principalmente pelos chamados construtivistas foi o retorno aos aspectos naturais da vida.É negligenciado porque o modo de viver de nossa sociedade é calcado no TER (o valor das coisas está na possibilidade de acumular bens, títulos, etc.) e não no SER (prioridade sobre os recursos e conteúdos internos do ser humano). A mudança de enfoque do TER para SER, permite a liberação do desejo e consequentemente a construção do conhecimento. Esta construção só ocorre quando o corpo inteiro está
Este impedimento se inicia muito mais cedo do que imaginamos. Desde tenra idade somos convidados a agir de forma obediente e passiva. Em nosso país o objetivo de prevenção na educação e saúde é totalmente negligenciado. Gastamos financeiramente tanto em programas terapêuticos e reeducativos! Muito poderia ser poupado se nos preocupássemos em acompanhar naturalmente o desenvolvimento humano atendendo as suas necessidades básicas.
Na vida intra-uterina o bebê inicia seu contato com o mundo, prepara-se para ser ativo num mundo que muito poderá lhe exigir se houver atenção a condições bio-psico e sociais. É praticamente nulo o atendimento pré natal que inclua a preocupação psico-afetiva e relacional. A indução a cesareanas é extrema, o apelo a amamentação é exagerado não levando em conta a figura materna e toda a desestruturação de sua imagem corporal. A mãe tem que dar o leite de seu peito, diz a propaganda. Sem negligenciar a importância do leite materno, onde fica a preocupação do tipo de relação afetiva esta mãe pode ter com seu bebê? Por que este fator é preponderante para o futuro deste ser? O atendimento na maternidade, a forma de lidar com as mães, parentes e bebês está desvinculado do lado humano. A impossibilidade de garantir a assistência às mães que logo têm que retornar ao emprego; ausência de locais adequados para os bebês ficarem, a existência de creches particulares e comunitárias que pouco se preocupam com o aspecto da evolução humana; Aos poucos esta criança aprende a controlar seu desejo, a seguir o padrão estabelecido pelo social. Um exemplo típico é observar uma criança tentando subir a escada de um escorrega. A maioria dos adultos não permite a criança exercitar as suas habilidades psicomotoras, imediatamente segura o corpo da criança e lhe dá o seu movimento... Chega a escola. Na educação infantil aprende a controlar a hora de fazer suas necessidades fisiológicas...em breve as psicológicas e sociais! Não é seu corpo que diz a hora de precisar usar o banheiro, mas o professor, que no apelo de uma falsa ordem, impede este organismo de se expressar. O aumento do uso de folhas mimeografadas com desenhos prontos, com contornos a serem seguidos, impedem que a coordenação motora encontre o seu equilíbrio que só pode tê-lo com espaços amplos, respeito e incentivo. A antecipação destes movimentos vão prejudicando, interferindo e restringindo funções psiconeurológicas essenciais ao Homem. Este processo não se encerra aqui, tende a piorar a partir da alfabetização como se este processo se iniciasse aos seis anos. Grande engano!!! Chega o segundo e terceiro graus e continuamos a não respeitar fases fundamentais. Tudo em nome do controle social. A conclusão de todo este processo é: "Não seja você, não acredite
Freinet fez o contrário: "Seja você, confie em você, viva a sua vida. Seja autor de seus atos, modifique a sua história e a do coletivo".
Iniciamos assim a quebra de um dos aspectos básicos da evolução humana e que Freinet tentou mostrar as pessoas de sua época. Todo e qualquer ser humano tem a capacidade de se auto-organizar, criar e recriar seu mundo fazendo a história pessoal e do coletivo.
Em seus escritos encontramos: "A aptidão da criança para pensar e para se exprimir, a passagem de um estado de menoridade mental e afetiva à dignidade de um ser capaz de construir experimentalmente a sua personalidade e de orientar o seu destino." 1
Vale ainda ressaltar que o grande medo do professor é o grau de liberdade que podemos dar ao aluno. Só aprendemos a ter este termômetro com a experiência de nossa própria liberdade. Vale ainda ressaltar que só aprendemos a ter liberdade com limites, mas só aprendemos a construir limites na vivência da liberdade.
Neste ponto precisamos rever qual a concepção de mundo que temos. Thomas Kuhn em seu livro A revolução das estruturas científicas nos mostra que a ciência só pode avançar a partir do surgimento de situações de crise. Foi num momento de crise no âmbito educacional que as técnicas de Freinet foram surgindo e preenchendo espaços até então vazios. Mas mais uma vez tentamos controlar um processo profundo e elaborado. Tentamos reduzir Freinet as suas técnicas em detrimento de um projeto de vida.
Kuhn nos questiona mostrando o quanto perdemos de idéias originais por estarmos condicionados aos modelos padronizados e muito seguros...
Rollo May lembra em seu livro A coragem de criar que só teremos coragem de criar quando pudermos assumir a autoria de nosso trabalho e lançá-lo ao mundo seja por escrito ou pelo verbal. Importante ainda é a exposição que se segue, sendo inclusive alvo de críticas.
Parece fundamental entendermos qual o paradigma que norteia nosso trabalho, nosso cotidiano. Paradigma quer dizer a concepção de mundo que temos. No meu entender nossa visão de mundo é bastante enraizada no paradigma cartesiano, ou seja, os fenômenos são separados em instâncias independentes; corpo e mente, sendo a razão a instância que detém o poder. A Pedagogia Freinet se encaixa no paradigma sistêmico, ou seja, os fenômenos são interdependentes. Nada está separado de nada e é o encontro, a possibilidade de integração de idéias, conteúdos, arte e filosofia que leva a sínteses cada vez mais elaboradas.
Neste caminhar, refutando o mecânico, o fragmento, apesar de compreender sua importância, cabe esclarecer a visão de Psicomotricidade que possuo. Esta ciência não pode ser entendida como a ligação corpo - mente, esta definição é insuficiente para expressar a complexidade dos fenômenos humanos. Prefiro definí-la como a ciência do Homem em Movimento, das relações consigo e com o mundo, com o corpo, através do corpo e de sua corporeidade.
Com esta pequena definição dos paradigmas e da Psicomotricidade podemos indagar porque continuamos cartesianos apesar de tantas informações científicas que nos apontam para o caminho do sistêmico.
Thomas Kuhn nos disse que mudar de paradigma nos leva a zero no que sabemos. É recomeçar partindo do nada. O êxito passado não garante o atual.Tal mudança provoca medos e incertezas e poucas pessoas neste mundo estão preparados internamente para acreditar em suas próprias capacidades de análise e sínteses.
Mas estamos falando de concepção de mundo e o nosso fazer se concretiza pela motricidade e por um corpo que age. Que corpo é este? Estamos falando de um corpo que é expressão do inconsciente, além dos fatores conscientes, de um corpo que não é só controle, mas um corpo que é apaixonante e portanto inesperado e sem controle. Estamos falando de um corpo que não é instrumento mas que define a história do ser humano. Um corpo que sou eu!
Fomos educados num sistema onde a escola era para ensinar e aprender, para transmitir conhecimentos e saberes. Nosso corpo foi sabiamente disciplinado. O corpo teve que permanecer como instrumento a serviço de um pensamento racional. Um corpo que eu pensava controlar e o eu.
La Pierre, 1986, diz que a maioria de nós teve seu corpo alinhado seguramente atrás de carteiras, com horários rígidos, de forma a não se agitar, exceto, quando podíamos, na hora do recreio, de forma a não perturbar a ordem e a autoridade do professor. Este corpo é o corpo funcional. Corpo do Tônus, das emoções devidamente controlados, das sensações e posturas fragmentadas, da coordenação padronizada, da lateralidade e do equilíbrio organizado socialmente. Corpo usado como instrumento de conhecimento - conhecimento abstrato do tempo, espaço, ritmos, do Esquema corporal.
Mas o corpo não é só isto! O corpo também é expressão de desejos e pulsões. Este expressar não encontra lugar na escola tradicional, mas Freinet permitiu a existência deste nível e surpreso ficou quando ao libertar o corpo de seus alunos percebeu que a motivação e o aproveitamento foram enormes.
"Eu não contava que os alunos se mantivessem apaixonados, durante muito tempo... Enganava-me. Os alunos se apaixonaram pela composição e pela impressão, coisas que não eram simples. As crianças deixaram-se prender pelas novas tarefas, não porque a ordenação dos caracteres pudesse ser atraente, mas sobretudo porque tínhamos descoberto um processo natural e normal da cultura, à observação, o pensamento, a expressão natural tornavam-se texto perfeito..." 2
"Eis a primeira descoberta de base que ia permitir que fosse reconsiderado progressivamente todo o ensino. Tínhamos restabelecido um circuito natural, interrompido pela escolástica. O pensamento e a vida da criança podiam agora tornar-se elementos de enorme importância cultural". 3
Este corpo vai além do funcional, é um corpo relacional, corpo dos fantasmas, corpo do tônus e afetividade, do relacionamento interpessoal, da sexualidade, da imagem corporal. Imagem esta que depende do reforço do ambiente. Freinet tinha confiança em seus alunos, acreditava neles, valorizava cada ato. Como ele nos disse: "Depositei confiança nas crianças e tive razão".
Toda a recusa a este corpo relacional aprendida na infância acompanha o adulto e por isto é tão difícil sermos autores de nossos trabalhos.
As informações são necessárias mas são inutilizáveis em uma relação psicomotora enquanto não tiverem sido vividos ao nível do corpo e integrados ao nível da pessoa global. Os educadores sentem a introdução do corpo vivido como perda de sua autoridade. Devemos questionar a nossa postura. Desejamos continuar adestrando corpos e verificar a não realização de nossos alunos, ou questionar a nossa prática, nossa própria limitação e começar a abrir espaços dentro de nós e na relação com o outro?
Vitor da Fonseca, 1989, afirma que como educadores estamos muito secos de afeto, de espaço, de tempo e tornamos nosso interior muito estéril para um trabalho de relação autêntica.
Freinet tinha um profundo respeito pelos seus alunos e sua autoridade era indiscutível. Um dos itens fundamentais na prática psicomotora é o respeito ao ser humano com quem se mantém relação. Isto só é atingido quando o educador vivencia seu corpo. O educador precisa viver nas condições de uma comunicação não verbal, a sua relação com o próprio corpo, com o objeto, o espaço, o outro, o grupo; que seja confrontado com estas situações para compreender na vivência sobre suas necessidades, seus impedimentos, suas defesas e suas potencialidades.
As atividades de livre expressão permitem ao ser humano resgatar o sentido de iniciativa, de autonomia, de coordenação de seus movimentos. Com estas atividades as pessoas deixam cair as armaduras, criam, recriam, experimentam a liberdade num espaço onde investem plenamente sua afetividade a nível energético (sistema límbico), a educação seria prazerosa e criativa, atendendo ao mais íntimo do ser humano. Freinet chegou até este íntimo!
Somente a tensão emocional da busca, da descoberta, com as modulações tônicas que lhes servem de base, permitem aos conhecimentos integrarem-se realmente constituindo elaboradas sínteses . Estamos falando da construção de alunos, ou melhor homens, críticos, inteligentes, capazes de transformações.
Vale retornar algumas informações sobre o assunto e buscar uma nova síntese. Piaget demonstra que a inteligência se constrói na adaptação do Homem ao meio através dos processos de assimilação e acomodação. Neste movimento contínuo é que o indivíduo incorpora o mundo exterior e vai se transformando. Não há dúvida que o corpo é imprescindível no perceber (assimilação) e nos movimentos (acomodação) e é este conjunto de adaptações que permitirá a evolução da inteligência prática
Wallon discute a unidade indissolúvel entre o indivíduo e o meio. Não há separação entre o homem e sua cultura. Para este, o desenvolvimento biológico (maturação nervosa e psicomotora) e o desenvolvimento social (apropriação da experiência social), são condições um do outro. O movimento é a característica existencial da criança e determinada pela relação afetiva entre criança/adulto. O movimento é a expressão deste ser em sua totalidade, sendo sua primeira e eterna estrutura de relação com o mundo, onde se edificará a inteligência, onde noções e informações que existem fora do indivíduo e que são patrimônio da cultura são anexados. Sua preocupação foi de organizar uma concepção que provocasse a influência entre EMOÇÃO/MOTRICIDADE; MOTRICIDADE/ REPRESENTAÇÃO; REPRESENTAÇÃO/CARÁTER. Seu paradigma é afetividade.
A escola soviética contribui informando que a criança se desenvolve na interação com o meio, interiorizando aquisições extrabiológicas e apropriando-se da experiência sócio-histórica dos adultos, ou seja, da humanidade. Seu paradigma é a interação e o posicionamento histórico.
Freinet, educador, prática exercida através da ação, da afetividade, da interação. Foi o primeiro a exercitar estes três paradigmas de forma interdependente. Sua prática está inserida numa nova visão de Homem.
No encontro destes autores surge uma busca antropossociológica, ou seja, colocar o Homem na sua própria complexidade. E só resgatando o lugar do corpo poderemos evitar a fragmentação já tão existente e que não nos permite visualizar e sentir a totalidade do ser humano, na constituição de sua singularidade.
De todos estes escritos, movimento se fez, integração aconteceu. A busca antropossociológica se fundamenta na ciência da Motricidade Humana, fundada por Manuel Sérgio. Nesta teoria, o Homem é definido sob alguns aspectos:
CARÊNCIA - Sempre falta algo que leva o Homem a um movimento de busca. Todo movimento depende da ausência.
INTENCIONALIDADE - O Homem caminha em sua busca dando significados a seus atos.
MOVIMENTO - É o ato que leva o Homem a agir, a concretizar seus desejos.
PRAXIDADE - O Homem age e reage, pelo trabalho, ao mundo em que vive. O Homem se constrói quando constrói sua própria história.
LINGUAGEM - Sistema de símbolos onde o Homem é o único capaz de criar a nível verbal e não verbal.
LUDICIDADE - Atividade vital para o ser humano. Todas as atividades devem incluir a alegria, a manifestação solidária., o prazer.
INTERSUBJETIVIDADE - O Homem está no mundo com o outro. A vivência do Homem é relacional.
TRANSCENDÊNCIA - O Homem busca o sentido da vida. Busca ser cada vez mais desenvolvido não para competir com o outro mas para ser mais.
TOTALIDADE - Implica em multiplicidade, contradição, complexidade.
Freinet criou uma prática pedagógica que respeitava o Homem em sua totalidade. A matriz teórica da Motricidade Humana permite visualizar a grandeza do trabalho deste mestre. O tempo todo os alunos estavam em movimento e mobilizando desejos, capacidades foi desenvolvendo Homens com competência. Tive o prazer de conhecer um senhor que foi aluno na Escola de Freinet em Vence e suas lembranças marcam que só há um objetivo para nossas crianças e adolescentes estarem indo para a escola e este objetivo é SER FELIZ. Apesar de ser uma pessoa e como tal fragmentada e com dificuldades próprias, Freinet foi um HOMEM EM MOVIMENTO!
Freinet tinha uma abordagem dialética do conhecimento. Assumiu um verdadeiro compromisso com o ser humano, no respeito ao sujeito histórico, com intenção a transcendência. Freinet se colocou como Homem, como uma pessoa que usou o diálogo verbal, mas também o visual, gestual, tônico, corporal, enfim, Freinet foi capaz de ir além da relação professor/aluno para o ENCONTRO VERDADEIRO e mais ainda, fez a crítica da teoria deixando suas reflexões sempre abertas para mudanças.
Análise feita, a síntese é inevitável. Urge colocar o Homem em sua complexidade, de aceitarmos a visão sistêmica de mundo e abarcar sem medo uma pedagogia científica.
Para terminar no estilo que também é pertinente a Freinet, citarei um provérbio chinês de forma que a decisão seja de cada um, assim como foi a minha apartir do dia que assumi publicamente a minha paixão pela vida.
"Dois homens olham por uma janela. Um vê as grades, o outro as estrelas".
EM BUSCA DA TOTALIDADE
Em primeiro lugar gostaria de me colocar no lugar de educadora e repassar alguns aspectos históricos de minha vida pois são estes que me permitem estar no lugar de autora deste artigo.
Nos anos 70 como iniciante na arte de educar senti a ausência de bases teóricas que justificassem a prática que exercia com crianças na chamada fase de alfabetização. Todas as aulas eram construídas conjuntamente com os alunos, costumávamos fazer aulas-passeio, construir histórias, ter momentos de prazer juntos. Esta forma "diferente" de ministrar aulas me levou a grandes bloqueios institucionais, chegando uma vez a agressão física de uma responsável alegando que "esta professora apenas brinca, não dá nada". Tal questão apesar de penosa para mim que estava com dezenove anos me levou a ter que justificar teoricamente meu trabalho e como esta busca sempre esteve presente fui promovida pela diretora do núcleo, professora Vitória Régia.. Foi assim que além da escola que ministrava aulas eu pude dividir a minha experiência com mais trinta e sete escolas...
Como uma educadora bastante inquieta, inquietação que perpetuo até hoje, trilhei caminhos diferentes: formação inicial de cunho pedagógico, depois psicológico. Sentia o fosso existente entre o teórico e o prático e busquei na Psicomotricidade algo que unisse. O corpo até então visto como elo também não me satisfez porque não o percebia como instrumento, fragmentado, corpo, mente. A busca de uma formação francesa com Françoise Desobeau acalmou em parte minhas angústias quando era devolvido ao Homem a própria fonte de criação e de saúde. O caminho era este naquele momento. Buscando me aperfeiçoar entrei para o mestrado, consciente de que o desejo de avançar era grande e queria algo que pudesse contribuir para um repensar autêntico e humilde da realidade do ser humano. Busquei trabalhar com a potencialidade humana questionando o trabalho com superdotados e introduzindo a Psicomotricidade como referencial na busca da compreensão e redefinição da pessoa do superdotado. Esbarrei na questão acadêmica, no fosso já sentido em minha formação de Psicologia. Tal assunto não tinha orientador capaz de discutir sobre o tema e não havia bibliografia disponível sobre esta busca epistemológica. Num ato que considero bastante heróico, a professora Eliane Gerck que orientava metodologicamente a minha dissertação mesmo desconhecendo os temas em questão enfrentou as barreiras institucionais. Em 1991 defendida a tese e aprovada por unanimidade, busquei caminhar para fora do país numa ambivalência de sentimentos muito grande - o desejo de acreditar no meu país, de buscar a compreensão da totalidade do Homem em minha prática e de buscar informações externas que aprimorassem estas idéias. Nesta busca em julho de 1991 conheci Manuel Sérgio Vieira e Cunha, que será mencionado neste artigo, fundador da ciência Motricidade Humana. Neste contato simples e direto com uma pessoa tão rica quanto Manuel Sérgio descobri que a filosofia poderia aprofundar questões até então extremamente necessárias. Assim, na leitura de seus livros, de seus discursos, encontrei o caminho do interdisciplinar e de algo que pudesse modificar, criar ao nível da prática com o ser humano algo entre o desejável e o possível e mudasse o enfoque do mecânico para o humano, do externo para o interno, na busca do próprio Homem.
Descoberta feita, profundidade teórica encontrada modifiquei todo o trabalho até então desenvolvido e numa busca de síntese reencontrei a pedagogia de Freinet quando inauguramos uma escola de artes, CRIA - CRIAÇÕES ARTÍSTICAS no Rio de Janeiro. Na mesma época sou chamada pelo Movimento nacional da Pedagogia Freinet de forma a contribuir com o meu conhecimento, com a minha experiência, seja a nível da criança ou a nível do adulto - ensino universitário. Nesta conferência minha vida tomou um rumo diferente, de retorno aos fatos naturais da vida. Conheci a educadora Flaviana Granzotto, doutora em Psicologia que aprendeu na vida e soube mostrar que a humildade é um bem inestimável. Foi com ela que (re) aprendi a ver a vida sob várias faces iluminadas a partir de minha busca interna, rompendo definitivamente com o cartesianismo e reencontrando minha totalidade. Descobri a força de uma educadora que trouxe a este país as idéias de Freinet e que na sua simplicidade grandiosa continuava a acreditar na formação de homens neste país. Não há porque ocultar que a presença desta senhora na platéia me fez tremer... fui invadida por uma sensação estranha, intuitiva de que algo em minha vida mudaria para sempre ao conhecê-la.
FREINET E PSICOMOTRICIDADE, UM ENCONTRO NATURAL NA VIDA
Nesta conferência procurei fazer um corte epistemológico e estudar a contribuição de Freinet a Psicomotricidade e como esta pode enriquecer a proposta pedagógica de Freinet. Sem dúvida que os anos de prática com as crianças vieram a tona...
Para iniciar esta reflexão gostaria de citar Marx: "O essencial vai além das aparências". Esta frase me fez retomar ao início de minha vida de educadora. Para compreender Freinet preciso olhar além do concreto e do objetivo, preciso sentir a subjetividade do Homem e isto perpassa por um olhar profundo e diferenciado em nossos recursos internos.
Psicomotricidade teve sua origem nos estudos de Piaget e Wallon, ambos considerados os pais da Psicomotricidade; um biólogo, o outro, psicólogo.
Pedagogia Freinet; Freinet, educador...
Que lugar ocupam no processo histórico e de formação da humanidade?
Entendo que possuem o lugar de contribuição grandiosa e portanto essenciais e eternas...
Falar desta síntese é colocar cada um na sua especificidade mas sobretudo colocá-los na busca da compreensão humana.
Busquei encontrar uma palavra que simbolizasse esta síntese e que nos conduzisse a complexidade do ser humano. A palavra escolhida foi movimento.
Movimento: "Ato ou processo de deslocar-se. Agitar em várias direções. Dar Vida, animação, desenvolvimento". Ferreira, 1986
Numa ótica filogenética, movimento nos leva as origens da vida. Não há vida sem movimento e a parada de movimento é a morte.Numa ótica ontogenética que revive a filogenética, somos movimento desde a formação da célula original.Precisamos falar da existência (da vida e da morte), do desenvolvimento, do lugar que estas contribuições deram ao mundo, buscando epistemologicamente colocar a Pedagogia Freinet no lugar do mérito, no reconhecimento de seu valor na formação da espécie humana.Como educador, Freinet não apenas contribuiu para a formação de seus alunos, mas da formação da espécie, lembrando que cada um de nós ao permitirmos o desenvolvimento de um Ser, permitimos a evolução da espécie.
E nós, que nos denominamos educadores, também estamos levando esta contribuição a nossa espécie?
Importante registrar que apesar de todo este conhecimento acumulado sobre a evolução humana, resistimos a colocar em prática informações valiosas escritas, discutidas, (re)escritas em vários livros, dissertações, teses....
Na Educação, como em qualquer ciência tem que haver espaço para o vazio e foi a partir do vazio, e de sua presença inquietante que Freinet pôde visualizar uma outra forma de SER. Rejeitou o adestramento de corpos e mentes, não sentiu prazer em controlar seus alunos e pacificá-los a seu bel prazer. Foi sua ferida simbólica (aquilo que nos motiva a agir em direção a algo), a escuta de si, de seus limites e de seus recursos internos que o levaram a transcender e ousar criar uma forma original de SER - ser pessoa/ser educador, compartilhando prazer com seus alunos.
A grande contribuição de Freinet ainda tão negligenciado em nosso mundo e principalmente pelos chamados construtivistas foi o retorno aos aspectos naturais da vida.É negligenciado porque o modo de viver de nossa sociedade é calcado no TER (o valor das coisas está na possibilidade de acumular bens, títulos, etc.) e não no SER (prioridade sobre os recursos e conteúdos internos do ser humano). A mudança de enfoque do TER para SER, permite a liberação do desejo e consequentemente a construção do conhecimento. Esta construção só ocorre quando o corpo inteiro está
Este impedimento se inicia muito mais cedo do que imaginamos. Desde tenra idade somos convidados a agir de forma obediente e passiva. Em nosso país o objetivo de prevenção na educação e saúde é totalmente negligenciado. Gastamos financeiramente tanto em programas terapêuticos e reeducativos! Muito poderia ser poupado se nos preocupássemos em acompanhar naturalmente o desenvolvimento humano atendendo as suas necessidades básicas.
Na vida intra-uterina o bebê inicia seu contato com o mundo, prepara-se para ser ativo num mundo que muito poderá lhe exigir se houver atenção a condições bio-psico e sociais. É praticamente nulo o atendimento pré natal que inclua a preocupação psico-afetiva e relacional. A indução a cesareanas é extrema, o apelo a amamentação é exagerado não levando em conta a figura materna e toda a desestruturação de sua imagem corporal. A mãe tem que dar o leite de seu peito, diz a propaganda. Sem negligenciar a importância do leite materno, onde fica a preocupação do tipo de relação afetiva esta mãe pode ter com seu bebê? Por que este fator é preponderante para o futuro deste ser? O atendimento na maternidade, a forma de lidar com as mães, parentes e bebês está desvinculado do lado humano. A impossibilidade de garantir a assistência às mães que logo têm que retornar ao emprego; ausência de locais adequados para os bebês ficarem, a existência de creches particulares e comunitárias que pouco se preocupam com o aspecto da evolução humana; Aos poucos esta criança aprende a controlar seu desejo, a seguir o padrão estabelecido pelo social. Um exemplo típico é observar uma criança tentando subir a escada de um escorrega. A maioria dos adultos não permite a criança exercitar as suas habilidades psicomotoras, imediatamente segura o corpo da criança e lhe dá o seu movimento... Chega a escola. Na educação infantil aprende a controlar a hora de fazer suas necessidades fisiológicas...em breve as psicológicas e sociais! Não é seu corpo que diz a hora de precisar usar o banheiro, mas o professor, que no apelo de uma falsa ordem, impede este organismo de se expressar. O aumento do uso de folhas mimeografadas com desenhos prontos, com contornos a serem seguidos, impedem que a coordenação motora encontre o seu equilíbrio que só pode tê-lo com espaços amplos, respeito e incentivo. A antecipação destes movimentos vão prejudicando, interferindo e restringindo funções psiconeurológicas essenciais ao Homem. Este processo não se encerra aqui, tende a piorar a partir da alfabetização como se este processo se iniciasse aos seis anos. Grande engano!!! Chega o segundo e terceiro graus e continuamos a não respeitar fases fundamentais. Tudo em nome do controle social. A conclusão de todo este processo é: "Não seja você, não acredite
Freinet fez o contrário: "Seja você, confie em você, viva a sua vida. Seja autor de seus atos, modifique a sua história e a do coletivo".
Iniciamos assim a quebra de um dos aspectos básicos da evolução humana e que Freinet tentou mostrar as pessoas de sua época. Todo e qualquer ser humano tem a capacidade de se auto-organizar, criar e recriar seu mundo fazendo a história pessoal e do coletivo.
Em seus escritos encontramos: "A aptidão da criança para pensar e para se exprimir, a passagem de um estado de menoridade mental e afetiva à dignidade de um ser capaz de construir experimentalmente a sua personalidade e de orientar o seu destino." 1
Vale ainda ressaltar que o grande medo do professor é o grau de liberdade que podemos dar ao aluno. Só aprendemos a ter este termômetro com a experiência de nossa própria liberdade. Vale ainda ressaltar que só aprendemos a ter liberdade com limites, mas só aprendemos a construir limites na vivência da liberdade.
Neste ponto precisamos rever qual a concepção de mundo que temos. Thomas Kuhn em seu livro A revolução das estruturas científicas nos mostra que a ciência só pode avançar a partir do surgimento de situações de crise. Foi num momento de crise no âmbito educacional que as técnicas de Freinet foram surgindo e preenchendo espaços até então vazios. Mas mais uma vez tentamos controlar um processo profundo e elaborado. Tentamos reduzir Freinet as suas técnicas em detrimento de um projeto de vida.
Kuhn nos questiona mostrando o quanto perdemos de idéias originais por estarmos condicionados aos modelos padronizados e muito seguros...
Rollo May lembra em seu livro A coragem de criar que só teremos coragem de criar quando pudermos assumir a autoria de nosso trabalho e lançá-lo ao mundo seja por escrito ou pelo verbal. Importante ainda é a exposição que se segue, sendo inclusive alvo de críticas.
Parece fundamental entendermos qual o paradigma que norteia nosso trabalho, nosso cotidiano. Paradigma quer dizer a concepção de mundo que temos. No meu entender nossa visão de mundo é bastante enraizada no paradigma cartesiano, ou seja, os fenômenos são separados em instâncias independentes; corpo e mente, sendo a razão a instância que detém o poder. A Pedagogia Freinet se encaixa no paradigma sistêmico, ou seja, os fenômenos são interdependentes. Nada está separado de nada e é o encontro, a possibilidade de integração de idéias, conteúdos, arte e filosofia que leva a sínteses cada vez mais elaboradas.
Neste caminhar, refutando o mecânico, o fragmento, apesar de compreender sua importância, cabe esclarecer a visão de Psicomotricidade que possuo. Esta ciência não pode ser entendida como a ligação corpo - mente, esta definição é insuficiente para expressar a complexidade dos fenômenos humanos. Prefiro definí-la como a ciência do Homem em Movimento, das relações consigo e com o mundo, com o corpo, através do corpo e de sua corporeidade.
Com esta pequena definição dos paradigmas e da Psicomotricidade podemos indagar porque continuamos cartesianos apesar de tantas informações científicas que nos apontam para o caminho do sistêmico.
Thomas Kuhn nos disse que mudar de paradigma nos leva a zero no que sabemos. É recomeçar partindo do nada. O êxito passado não garante o atual.Tal mudança provoca medos e incertezas e poucas pessoas neste mundo estão preparados internamente para acreditar em suas próprias capacidades de análise e sínteses.
Mas estamos falando de concepção de mundo e o nosso fazer se concretiza pela motricidade e por um corpo que age. Que corpo é este? Estamos falando de um corpo que é expressão do inconsciente, além dos fatores conscientes, de um corpo que não é só controle, mas um corpo que é apaixonante e portanto inesperado e sem controle. Estamos falando de um corpo que não é instrumento mas que define a história do ser humano. Um corpo que sou eu!
Fomos educados num sistema onde a escola era para ensinar e aprender, para transmitir conhecimentos e saberes. Nosso corpo foi sabiamente disciplinado. O corpo teve que permanecer como instrumento a serviço de um pensamento racional. Um corpo que eu pensava controlar e o eu.
La Pierre, 1986, diz que a maioria de nós teve seu corpo alinhado seguramente atrás de carteiras, com horários rígidos, de forma a não se agitar, exceto, quando podíamos, na hora do recreio, de forma a não perturbar a ordem e a autoridade do professor. Este corpo é o corpo funcional. Corpo do Tônus, das emoções devidamente controlados, das sensações e posturas fragmentadas, da coordenação padronizada, da lateralidade e do equilíbrio organizado socialmente. Corpo usado como instrumento de conhecimento - conhecimento abstrato do tempo, espaço, ritmos, do Esquema corporal.
Mas o corpo não é só isto! O corpo também é expressão de desejos e pulsões. Este expressar não encontra lugar na escola tradicional, mas Freinet permitiu a existência deste nível e surpreso ficou quando ao libertar o corpo de seus alunos percebeu que a motivação e o aproveitamento foram enormes.
"Eu não contava que os alunos se mantivessem apaixonados, durante muito tempo... Enganava-me. Os alunos se apaixonaram pela composição e pela impressão, coisas que não eram simples. As crianças deixaram-se prender pelas novas tarefas, não porque a ordenação dos caracteres pudesse ser atraente, mas sobretudo porque tínhamos descoberto um processo natural e normal da cultura, à observação, o pensamento, a expressão natural tornavam-se texto perfeito..." 2
"Eis a primeira descoberta de base que ia permitir que fosse reconsiderado progressivamente todo o ensino. Tínhamos restabelecido um circuito natural, interrompido pela escolástica. O pensamento e a vida da criança podiam agora tornar-se elementos de enorme importância cultural". 3
Este corpo vai além do funcional, é um corpo relacional, corpo dos fantasmas, corpo do tônus e afetividade, do relacionamento interpessoal, da sexualidade, da imagem corporal. Imagem esta que depende do reforço do ambiente. Freinet tinha confiança em seus alunos, acreditava neles, valorizava cada ato. Como ele nos disse: "Depositei confiança nas crianças e tive razão".
Toda a recusa a este corpo relacional aprendida na infância acompanha o adulto e por isto é tão difícil sermos autores de nossos trabalhos.
As informações são necessárias mas são inutilizáveis em uma relação psicomotora enquanto não tiverem sido vividos ao nível do corpo e integrados ao nível da pessoa global. Os educadores sentem a introdução do corpo vivido como perda de sua autoridade. Devemos questionar a nossa postura. Desejamos continuar adestrando corpos e verificar a não realização de nossos alunos, ou questionar a nossa prática, nossa própria limitação e começar a abrir espaços dentro de nós e na relação com o outro?
Vitor da Fonseca, 1989, afirma que como educadores estamos muito secos de afeto, de espaço, de tempo e tornamos nosso interior muito estéril para um trabalho de relação autêntica.
Freinet tinha um profundo respeito pelos seus alunos e sua autoridade era indiscutível. Um dos itens fundamentais na prática psicomotora é o respeito ao ser humano com quem se mantém relação. Isto só é atingido quando o educador vivencia seu corpo. O educador precisa viver nas condições de uma comunicação não verbal, a sua relação com o próprio corpo, com o objeto, o espaço, o outro, o grupo; que seja confrontado com estas situações para compreender na vivência sobre suas necessidades, seus impedimentos, suas defesas e suas potencialidades.
As atividades de livre expressão permitem ao ser humano resgatar o sentido de iniciativa, de autonomia, de coordenação de seus movimentos. Com estas atividades as pessoas deixam cair as armaduras, criam, recriam, experimentam a liberdade num espaço onde investem plenamente sua afetividade a nível energético (sistema límbico), a educação seria prazerosa e criativa, atendendo ao mais íntimo do ser humano. Freinet chegou até este íntimo!
Somente a tensão emocional da busca, da descoberta, com as modulações tônicas que lhes servem de base, permitem aos conhecimentos integrarem-se realmente constituindo elaboradas sínteses . Estamos falando da construção de alunos, ou melhor homens, críticos, inteligentes, capazes de transformações.
Vale retornar algumas informações sobre o assunto e buscar uma nova síntese. Piaget demonstra que a inteligência se constrói na adaptação do Homem ao meio através dos processos de assimilação e acomodação. Neste movimento contínuo é que o indivíduo incorpora o mundo exterior e vai se transformando. Não há dúvida que o corpo é imprescindível no perceber (assimilação) e nos movimentos (acomodação) e é este conjunto de adaptações que permitirá a evolução da inteligência prática
Wallon discute a unidade indissolúvel entre o indivíduo e o meio. Não há separação entre o homem e sua cultura. Para este, o desenvolvimento biológico (maturação nervosa e psicomotora) e o desenvolvimento social (apropriação da experiência social), são condições um do outro. O movimento é a característica existencial da criança e determinada pela relação afetiva entre criança/adulto. O movimento é a expressão deste ser em sua totalidade, sendo sua primeira e eterna estrutura de relação com o mundo, onde se edificará a inteligência, onde noções e informações que existem fora do indivíduo e que são patrimônio da cultura são anexados. Sua preocupação foi de organizar uma concepção que provocasse a influência entre EMOÇÃO/MOTRICIDADE; MOTRICIDADE/ REPRESENTAÇÃO; REPRESENTAÇÃO/CARÁTER. Seu paradigma é afetividade.
A escola soviética contribui informando que a criança se desenvolve na interação com o meio, interiorizando aquisições extrabiológicas e apropriando-se da experiência sócio-histórica dos adultos, ou seja, da humanidade. Seu paradigma é a interação e o posicionamento histórico.
Freinet, educador, prática exercida através da ação, da afetividade, da interação. Foi o primeiro a exercitar estes três paradigmas de forma interdependente. Sua prática está inserida numa nova visão de Homem.
No encontro destes autores surge uma busca antropossociológica, ou seja, colocar o Homem na sua própria complexidade. E só resgatando o lugar do corpo poderemos evitar a fragmentação já tão existente e que não nos permite visualizar e sentir a totalidade do ser humano, na constituição de sua singularidade.
De todos estes escritos, movimento se fez, integração aconteceu. A busca antropossociológica se fundamenta na ciência da Motricidade Humana, fundada por Manuel Sérgio. Nesta teoria, o Homem é definido sob alguns aspectos:
CARÊNCIA - Sempre falta algo que leva o Homem a um movimento de busca. Todo movimento depende da ausência.
INTENCIONALIDADE - O Homem caminha em sua busca dando significados a seus atos.
MOVIMENTO - É o ato que leva o Homem a agir, a concretizar seus desejos.
PRAXIDADE - O Homem age e reage, pelo trabalho, ao mundo em que vive. O Homem se constrói quando constrói sua própria história.
LINGUAGEM - Sistema de símbolos onde o Homem é o único capaz de criar a nível verbal e não verbal.
LUDICIDADE - Atividade vital para o ser humano. Todas as atividades devem incluir a alegria, a manifestação solidária., o prazer.
INTERSUBJETIVIDADE - O Homem está no mundo com o outro. A vivência do Homem é relacional.
TRANSCENDÊNCIA - O Homem busca o sentido da vida. Busca ser cada vez mais desenvolvido não para competir com o outro mas para ser mais.
TOTALIDADE - Implica em multiplicidade, contradição, complexidade.
Freinet criou uma prática pedagógica que respeitava o Homem em sua totalidade. A matriz teórica da Motricidade Humana permite visualizar a grandeza do trabalho deste mestre. O tempo todo os alunos estavam em movimento e mobilizando desejos, capacidades foi desenvolvendo Homens com competência. Tive o prazer de conhecer um senhor que foi aluno na Escola de Freinet em Vence e suas lembranças marcam que só há um objetivo para nossas crianças e adolescentes estarem indo para a escola e este objetivo é SER FELIZ. Apesar de ser uma pessoa e como tal fragmentada e com dificuldades próprias, Freinet foi um HOMEM EM MOVIMENTO!
Freinet tinha uma abordagem dialética do conhecimento. Assumiu um verdadeiro compromisso com o ser humano, no respeito ao sujeito histórico, com intenção a transcendência. Freinet se colocou como Homem, como uma pessoa que usou o diálogo verbal, mas também o visual, gestual, tônico, corporal, enfim, Freinet foi capaz de ir além da relação professor/aluno para o ENCONTRO VERDADEIRO e mais ainda, fez a crítica da teoria deixando suas reflexões sempre abertas para mudanças.
Análise feita, a síntese é inevitável. Urge colocar o Homem em sua complexidade, de aceitarmos a visão sistêmica de mundo e abarcar sem medo uma pedagogia científica.
Para terminar no estilo que também é pertinente a Freinet, citarei um provérbio chinês de forma que a decisão seja de cada um, assim como foi a minha apartir do dia que assumi publicamente a minha paixão pela vida.
"Dois homens olham por uma janela. Um vê as grades, o outro as estrelas".
Este é o documento científico 1 do acervo do I NucleRio - I Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Pedagogia Freinet e Psicomotricidade do Rio de Janeiro e gentilmente cedido a Sociedade Brasileira Ramain Thiers para este livro. ·PRISTA, R.M - Superdotados e Psicomotricidade: um resgate a unidade do ser, Petrópolis, Ed. Vozes, 1993.. ·FONSECA, V. - Escola, escola, quem és tu? Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1987 ·FROMM, E. - TER ou SER? Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1980. ·SÉRGIO, M. - Para uma epistemologia da Motricidade Humana, Lisboa, Compendium, 1987. ·LAPIERRE, A. e AUCOUTURIER - A simbologia do movimento, Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1986. FREINET, C. 1. As técnicas Freinet na Escola Moderna, Lisboa, Ed. Estampa, 1975. 2. Idem 3. Pedagogia do Bom Senso, Ed. Moraes.
Publicado em 01/01/2000
Rosa M. Prista - Psicóloga, psicomotricista. Fundadora e Mediadora da Psicomotricidade Sistêmica. Mestre em Psicologia escolar, autora do livro: SUPERDOTADOS E PSICOMOTRICIDADE, UM RESGATE A UNIDA DO SER. Doutoranda em Psicologia e Qualidade de Vida.
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